Os sonhos como via de acesso ao inconsciente: uma reflexão pessoal
- Albanise Montevade

- 29 de jun.
- 3 min de leitura
Ao estudar a histeria e os sonhos em Freud, lembrei-me de um sonho marcante que eu tive após um período de intenso sofrimento.
Nele, vi um mar profundo e revolto e sobre ele, Jesus surgindo de suas profundezas em minha direção. Mais do que buscar uma interpretação definitiva, guardo essa experiência como uma vivência de paz e proteção, que me levou a refletir sobre a capacidade da psique de encontrar recursos para atravessar momentos difíceis.
Freud considerava os sonhos uma via privilegiada de acesso ao inconsciente. Independentemente de interpretações religiosas ou psicológicas, esse sonho teve para mim um efeito transformador, uma sensação de segurança e acolhimento que permaneceu mesmo após o despertar.
Esta é uma reflexão pessoal inspirada pelos estudos da Obra de Freud e pela experiência singular de um sonho que teve significado transformador para mim.
Albanise Monlevade
Psicanalista em formação
Terapeuta integrativa
Referência: Freud, S. (1900) A interpretação dos Sonhos.
Análise simbólica do sonho relatado: (Entre Freud e Jung)
Para realizar uma análise simbólica deste relato, é fundamental adotar o seguinte critério:
De que o sonho não é um enigma a ser "decifrado" como uma charada, mas um material vivo, uma construção da psique diante de um momento de intenso sofrimento.
Na psicanálise, não buscamos uma interpretação única, mas sim o sentido que essa imagem ganha na sua economia psíquica.
Abaixo, uma hipótese proposta com base na leitura fundamentada através da metapsicologia freudiana. Neste cado apenas os aspectos simbólicos contidos no sonho.
1. O Cenário: O Mar Profundo e Revolto:
Freud, em A Interpretação dos Sonhos, frequentemente associa a água a estados afetivos e ao próprio inconsciente.
O Inconsciente como Oceano: O mar, sendo profundo e revolto, é uma representação clássica do "oceano" de conteúdos reprimidos, pulsões e afetos que transbordam durante períodos de crise. A turbulência reflete o estado interno de sofrimento que você mencionou.
A Função do Sonho: O fato de o sonho surgir após esse período sugere um movimento de elaboração. A psique está tentando organizar o caos, trazendo para a superfície (o consciente) uma imagem que contém a magnitude da sua dor.
2. O Surgimento: Jesus e a Função da Imagem
O surgimento de Jesus a partir das profundezas, em sua direção, altera a natureza da experiência:
Representação do Ideal do Eu: Do ponto de vista estritamente freudiano, a figura de Jesus pode ser vista como uma projeção de um ideal, uma figura de proteção, autoridade e amor incondicional que a psique evoca para se contrapor à fragmentação do sofrimento.
A "Via Regia": O sonho funciona aqui como um mecanismo de defesa bem-sucedido. Ele não apenas expressa o conflito (o mar revolto), mas oferece uma solução simbólica (o acolhimento). É o que Freud chamaria de "realização de desejo": o desejo de ser amparado e protegido quando a realidade externa ou interna parece insuportável.
A pergunta para reflexão:
"Não limitar o que significa Jesus", mas sim em "o que essa paz permitiu que você fizesse após o sonho?".
O ponto central não é a imagem, mas o efeito transformador que você mencionou. Na psicanálise, o "valor de verdade" de um sonho é medido pelo quanto ele altera o sujeito. Se o sonho lhe proporcionou a sustentação necessária para continuar, ele cumpriu sua função primordial: a de servir como um organizador da vida psíquica. (complemento de Jung).
O Acolhimento: O conteúdo manifesto de quem relatou o sonho, descreveu uma sensação de segurança que permaneceu ao despertar. Isso é, tecnicamente, o sonho exercendo sua função de "guardião do sono" e, por extensão, guardião da saúde mental. Ele lhe deu um "lugar" interno de abrigo.
Síntese
Este sonho revela um movimento da sua psique de auto-organização. O mar revolto é a sua humanidade em sofrimento; a figura que surge é a capacidade da psique de acessar uma fonte de estabilidade arquetípica.
Essa experiência é um testemunho vivo do que foi aprendido: A psicanálise não é apenas um estudo técnico sobre o passado, mas uma ferramenta para que o sujeito possa, diante da tormenta, construir a ponte (ou a figura) que o levará à margem da segurança.
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Incrível como esses estudos abrem nossa mente e nos ajuda a interpretar tantas coisas. Maravilhoso Albanise!