Você já sentiu que perdeu algo que nunca teve? Lacan e o Narcisismo Primário
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 14 de abr.
- 5 min de leitura
Uma introdução à dialética da falta e do ideal a partir do Seminário 1
1. A sensação de que algo falta
Quem nunca experimentou aquela sensação difusa de que algo está faltando?
Um vazio que não se preenche com conquistas, bens ou mesmo com o amor.
O sucesso profissional vem, mas a angústia permanece. O relacionamento desejado se concretiza, mas a insatisfação retorna. É como se houvesse uma promessa antiga, talvez nunca formulada, de uma completude que nunca mais se reencontra.
Para a psicanálise lacaniana, essa sensação não é um acidente biográfico, nem um sintoma a ser eliminado. Ela é estrutural.
E Lacan, no Seminário 1 – "Os Escritos Técnicos de Freud" (1953-1954), dedicou um capítulo fundamental a essa questão, retomando o artigo freudiano "Introdução ao Narcisismo" (1914) em diálogo com os filósofos que estavam presentes.
O que está em jogo é o que Freud chamou de narcisismo primário, e o que Lacan descreverá como a perda originária que constitui o sujeito humano.
2. Freud: as três fontes do sentimento de si
No artigo sobre o narcisismo, Freud propõe que o sentimento de si, tem três origens:
Fonte | Descrição |
1. Satisfação narcísica primária | O estado inicial de completude, em que o bebê não distingue entre eu e mundo. Tudo é satisfação, tudo é "ele". É o que Lacan chamará, com certa ironia, de "belo animal" – fechado em si mesmo, sem falta. |
2. Critério de sucesso | O prazer que advém de realizar algo, de exercer controle sobre o mundo. É uma reminiscência da onipotência infantil, que nunca é totalmente abandonada. |
3. Gratificação recebida dos objetos de amor | O amor e o reconhecimento que vêm do outro. Quando somos amados, nosso sentimento de si se eleva; quando rejeitados, ele desaba. |
A terceira fonte é particularmente importante para a clínica: a dependência do amor do Outro é uma das molas mestras da neurose. O neurótico está sempre à mercê do olhar alheio, buscando no outro o reconhecimento que ele não consegue dar a si mesmo.
3. A frase capital: perda, ideal e busca impossível
No decorrer do seminário, Serge Leclaire (um dos participantes) cita uma passagem decisiva de Freud:
"O desenvolvimento do eu consiste num afastamento do narcisismo primário e engendra um vigoroso esforço para reganhá-lo. Esse afastamento faz-se por meio de um deslocamento da libido para um ideal do eu imposto pelo exterior, e a satisfação resulta da realização desse ideal."
Lacan se detém nessa frase. Ela condensa a dialética fundamental da existência humana:
Perda: O sujeito se afasta inevitavelmente do narcisismo primário. A completude do "belo animal" é perdida para sempre.
Busca: Todo o esforço da vida será, a partir de então, uma tentativa de regar essa completude.
Mediação pelo ideal: Mas essa recuperação não pode ser direta. Ela só pode ocorrer através de um Ideal do Eu que vem de fora imposto pelos pais, pela cultura, pela linguagem, pelo Outro.
Satisfação provisória: A satisfação advém da realização desse ideal. Mas ela é sempre fugaz, porque o ideal é, por estrutura, irrealizável por completo.
4. A contribuição de Hyppolite: o ideal irrealizável
Jean Hyppolite, o filósofo hegeliano convidado por Lacan, faz uma observação crucial. Ele nota que o Ideal do Eu é essencialmente irrealizável. E é justamente por isso que ele tem duas faces:
Face destrutiva: Gera frustração, culpa, sentimento de inadequação. O sujeito nunca está "à altura" de seu ideal. O superego, herdeiro do Ideal do Eu, pode se tornar tirânico.
Face atraente: É o motor da transcendência, da ambição, da criação artística, científica e amorosa. Sem ideal, não há desejo; sem desejo, não há vida.
Lacan acolhe essa contribuição e a integra à sua teoria. O Ideal do Eu não é um "inimigo" a ser abolido. É a estrutura mesma da subjetividade humana.
"O ideal que te move é o mesmo que te aprisiona. A psicanálise não te liberta do ideal, ela te mostra sua estrutura." Lacan
5. O que isso significa na clínica?
Na prática analítica, essa concepção tem implicações. Para Lacan, o analista não deve:
Prometer a restauração de um narcisismo primário (a "completude" que nunca existiu de fato).
Oferecer-se como novo ideal a ser alcançado (o que seria uma armadilha transferencial).
Reduzir o sofrimento do paciente a uma "falta de autoestima" a ser corrigida por reforço positivo.
O que o analista faz, ao contrário, é sustentar a falta como estruturante.
Ele não oferece um ideal;
Ele escuta como o sujeito se relaciona com seu ideal.
Ele não preenche o vazio;
Ele permite que o sujeito fale a partir dele.
6. Exemplo clínico: o executivo que nunca está satisfeito
Um paciente, executivo bem-sucedido, chega à análise com queixa de "ansiedade e vazio".
Ele relata que já alcançou tudo o que planejou: promoções, reconhecimento, estabilidade financeira. Mas a cada nova conquista, a satisfação dura poucos dias, e o vazio retorna.
Ele diz: "Eu pensava que, quando chegasse aqui, ia me sentir completo. Mas não me sinto."
Sua fala revela a estrutura do narcisismo: ele busca no sucesso (critério de sucesso) e no reconhecimento (gratificação dos objetos de amor) a completude perdida do narcisismo primário. Mas essa completude nunca retorna, porque ela nunca existiu como tal. Era uma ilusão necessária, mas ilusão.
O trabalho analítico não consistirá em "ajudá-lo a se sentir melhor consigo mesmo" (reforço do eu), mas em situar sua relação com o ideal, de onde ele veio? A quem ele quer agradar? O que ele realmente deseja, para além do sucesso?
7. Considerações: viver com a falta
Lacan não oferece uma saída consoladora. A completude do narcisismo primário não será reencontrada. O ideal do eu não será plenamente realizado. A falta não será abolida.
Mas essa não é uma má notícia. É a condição da existência humana. É o que nos move a criar, a amar, a trabalhar, a desejar. Sem a falta, não haveria desejo; sem desejo, não haveria vida.
A psicanálise não promete a cura da falta. Ela ensina a viver com ela.
Como escreve Lacan ao final do seminário: "O ser se realiza na palavra", não na imagem narcísica, não no ideal plenamente atingido, mas na assunção, pela palavra, da própria divisão e da própria falta.
Referências
Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. Edição Standard Brasileira.
Lacan, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Capítulo sobre "O narcisismo".
Hyppolite, J. (1954). Intervenções no Seminário de Lacan, publicadas nos Escritos.
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