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O Ideal do Eu: Tirano ou Motor da Existência?

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 14 de abr.
  • 5 min de leitura

Lacan, Freud e o paradoxo do ideal que vem do Outro


1. O paradoxo do ideal

Todos nós temos ideais. Profissionais, estéticos, morais, amorosos. Eles nos movem, nos impulsionam, dão sentido à nossa vida. Mas também nos frustram, nos fazem sentir inadequados, nos confrontam com nossa insuficiência.


O ideal é, ao mesmo tempo, aquilo que nos ergue e aquilo que nos esmaga.


Lacan, no Seminário 1, retoma essa questão a partir do artigo freudiano sobre o narcisismo. Freud havia proposto que o sujeito, ao se afastar do narcisismo primário, desloca sua libido para um Ideal do Eu, imposto pelo exterior. A satisfação, a partir de então, só pode vir da realização desse ideal.


Mas, como observa Jean Hyppolite (convidado de Lacan), o Ideal do Eu é irrealizável por natureza. E é justamente por isso que ele tem duas faces: uma destrutiva e uma atraente.


2. O Ideal do Eu não é o Eu Ideal

É fundamental distinguir dois conceitos que, na tradução, frequentemente se confundem:


Conceito

Natureza

Função

Eu Ideal

Imaginária

A imagem idealizada de si mesmo, a completude narcísica perdida. É o "belo animal".

Ideal do Eu

Simbólica

A instância que vem do Outro, que orienta o sujeito, que mede seu eu atual. É a lei, o imperativo.


Lacan é enfático:

  • (Eu Ideal) é uma imagem: Algo que se vê no espelho, que se projeta no outro.

  • O (Ideal do Eu) é uma instância simbólica: A palavra do Outro, a lei, o imperativo que diz "tu deves".


Confundir os dois é um erro clínico grave. O analista que oferece ao paciente uma imagem de si (o Eu Ideal) como meta está no registro do imaginário. O que está em jogo na análise é a relação do sujeito com o Ideal do Eu, com a lei que o constitui.


3. Por que o Ideal do Eu é irrealizável?

Hyppolite formula a questão com precisão. O Ideal do Eu vem do Outro. Ele é, por definição, exterior ao sujeito. O sujeito pode se aproximar dele, pode realizar parte de suas exigências, mas nunca se tornará idêntico a ele.


Por quê? Porque o Ideal do Eu é, em sua essência, um limite. Ele aponta para algo que o sujeito não é, mas que deve ser. É a instância da falta, da incompletude, do desejo.


Se o Ideal do Eu fosse realizável, ele deixaria de ser ideal. Se o sujeito se tornasse idêntico ao seu ideal, o desejo cessaria. E, com ele, a vida psíquica.


"O ideal que te move é o mesmo que te aprisiona. A psicanálise não te liberta do ideal, ela te mostra sua estrutura."


4. As duas faces do Ideal: destrutiva e atraente

Hyppolite nota que o caráter irrealizável do Ideal do Eu produz duas consequências opostas, mas complementares:



Face

Efeito

Manifestação Clínica

Destrutiva

Frustração, culpa, sentimento de inadequação. O sujeito nunca está "à altura".

Depressão, síndrome do impostor, autoexigência paralisante.

Atraente

Motor da transcendência, da ambição, da criação. O ideal puxa o sujeito para frente.

Criação artística, científica, amorosa; busca de sentido; superação de limites.

O mesmo ideal que faz o sujeito sofrer é o que o faz viver. Não se trata de "abolir" o ideal, mas de situar a relação do sujeito com ele.


5. Exemplo clínico: o médico que se sente um "impostor"

  • Um médico, já estabelecido, chega à análise queixando-se de que "qualquer hora vão descobrir que eu não sei de nada". Ele tem uma carreira brilhante, publicações, reconhecimento dos pares. Mas carrega uma sensação constante de inadequação.

  • Trata-se da "síndrome do impostor", uma manifestação clássica da face destrutiva do Ideal do Eu. O ideal desse médico (ser o "médico perfeito", o "sábio absoluto") é irrealizável. Ele nunca se sente à altura.

  • O trabalho analítico não consistirá em "aumentar sua autoestima" (reforço do Eu Ideal), mas em situar a origem desse ideal – a relação com um pai que nunca estava satisfeito, uma mãe que só o elogiava quando ele "superava as expectativas". E, a partir daí, abrir a possibilidade de uma relação menos tirânica com o próprio ideal.


6. O que o analista faz?

O analista não oferece um novo ideal. Não diz ao paciente: "seja você mesmo", "aceite-se como é". Essas são fórmulas vazias, que ignoram a estrutura do desejo.


O analista escuta como o paciente se relaciona com seu ideal:


  • De onde vem esse ideal?

  • A quem ele quer agradar?

  • O que ele realmente deseja, para além da realização do ideal?


E, ao escutar, o analista permite que o sujeito não seja escravo de seu ideal, não porque o ideal desapareça, mas porque o sujeito pode se situar em relação a ele de uma maneira nova.


O ideal como estrutura, não como inimigo

Quem diz não compreender Lacan talvez esteja, justamente, diante daquilo que ele propôs: não ser compreendido.”

Lacan é um crítico. Mas ele não propõe uma "análise que abole o supereu". O ideal é estruturante. Sem ele, não há desejo; sem desejo, não há vida.


Mas a psicanálise pode ajudar o sujeito a:


  • Reconhecer que seu ideal vem de fora, não é "natural" nem "essencial".

  • Suportar a frustração de nunca estar à altura.

  • Fazer algo criativo com essa frustração, em vez de apenas sofrer com ela.


"Não se trata de abandonar o ideal.

Trata-se de saber de onde ele vem e que lugar ele ocupa na sua vida."


Referências

  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. Edição Standard Brasileira.

  • Freud, S. (1923). O ego e o id. Edição Standard Brasileira.

  • Lacan, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Capítulos sobre "O narcisismo" e "Ideal do Eu e Eu Ideal".

  • Hyppolite, J. (1954). Comentário sobre a Verneinung de Freud. In: Escritos de Lacan.


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