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A Viagem de Ulisses - Uma leitura psicanalítica

  • Foto do escritor: Crisney Barbosa
    Crisney Barbosa
  • 13 de mai.
  • 3 min de leitura

A viagem, o que é? O que significa? Neste artigo, quero pensar a viagem a partir da psicanálise.

Ao trazer Odysseia e a figura de Ulisses e seu retorno a Ítaca, encontramos um caminho fértil. Pela filosofia e pela tradição clássica, chegamos ao saber da grande Guerra de Troía: anos de batalhas até Ulisses conceber a ideia do cavalo de madeira, usando a fé dos troianos contra eles mesmos.


Mas não é essa a questão central. O que me interessa é o que acontece depois da guerra: a travessia de Ulisses.

Seriam ilhas perdidas ou um Ulisses perdido? Cada ilha revela um conflito; cada conflito produz uma descoberta. Em cada parada, um eu que tenta se compreender, tenta retornar a si mesmo. Aí nasce uma narrativa psicanalítica profunda: viajar e retornar.

Muitas vezes desejamos partir, mas também desejamos voltar. E para retornar não basta apenas vontade; é preciso orientação, direção e reconhecimento do caminho. Ulisses queria regressar aos braços de seu lar, mas se perdia no percurso.


Que percurso é esse?

Talvez seja justamente o caminho em que o sujeito se encontra com aquilo que desconhece em si. Cada ilha torna-se um encontro com os desejos, medos, fantasias, tentações e limites. Em sua passagem pela ninfa Calypso, filha de Atlas, sedutora e cercada por natureza exuberante, Ulisses é aprisionado pela promessa de amor eterno e juventude.


Aqui surge um ponto decisivo para a psicanálise: o desejo de permanência. O desejo de um amor absoluto, de um tempo que não passa, de uma satisfação sem perda. Somos frequentemente seduzidos por fantasias e ilusões narcísicas, e justamente aí corremos o risco de perder o caminho de volta. Ulisses representa a dor da distância entre o eu e seus desejos. Sua viagem também é o esforço de retornar à realidade depois de atravessar a imaginação.


Mas o que é o real nessa viagem?

Na psicanálise, o real não é simplesmente aquilo que vemos. O real é aquilo que escapa ao nosso domínio, aquilo que insiste, que não se deixa capturar inteiramente pela fantasia. Por isso, a travessia transforma. O caminho nos confronta com faltas, limites e renúncias.


Talvez seja essa a grande questão de Ulisses: ao retornar, ele já não é o mesmo. E talvez nós também não sejamos. Toda viagem verdadeira modifica quem parte e também quem volta. Ele representa esse homem dividido, entre o sujeito dividido entre desejo e dever; a inteligência humana diante do caos; a viagem interior do autoconhecimento; o retorno à própria essência após atravessar dores e perdas.


A viagem pode ser pensada como metáfora do percurso do sujeito no encontro com o inconsciente. As ilhas funcionam como formações psíquicas: espaços de desejo, conflito, repetição e descoberta.


Calypso pode ser lida como imagem da sedução narcísica o convite a permanecer no prazer e evitar o trabalho psíquico do retorno.


O retorno não significa voltar ao mesmo lugar, mas voltar com outra elaboração de si. Há também um ponto importante: depois da guerra, Ulisses não enfrenta apenas monstros externos; ele enfrenta aquilo que a guerra deixou dentro dele ou seus próprios mostro pós-guerra.


Conforme Ferenczi (2011, 295) “na histeria de conversão, o sintoma físico não surge apenas como lembrança esquecida, mas como uma inscrição traumática. O sujeito muitas vezes não recorda conscientemente o acontecimento afetivo, porém revive, no corpo, aquilo que permaneceu sem elaboração psíquica. A dor, a paralisia, os espasmos ou os adoecimentos aparecem como uma linguagem silenciosa do trauma”.


Ferenczi aprofundaria ainda a ideia de que certas experiências afetivas precoces especialmente aquelas marcadas pelo excesso, pela violência emocional, pela invasão psíquica ou pela ausência de acolhimento produzem uma fragmentação interna. O indivíduo se divide entre aquilo que suporta mostrar e aquilo que precisa enterrar para continuar existindo. Entretanto, o que é enterrado não desaparece: transforma-se em sintoma.


Em Ulisses, isso aparece na errância constante: ele deseja voltar para casa, mas algo nele também permanece preso ao horror vivido. A viagem se torna o reflexo de um psiquismo desorganizado pela experiência traumática.

Então, na psicanálise, encontramos as reminiscências, as histórias de retorno e a espera de Penélope, esposa de Ulisses. Encontramos os percursos, as mitologias e tudo aquilo que atravessa o sujeito em sua travessia.


Deixo, então, um questionamento aos leitores: não seria esse um mundo de desejos, sonhos e fantasias criadas na mente de Ulisses? Um mundo na qual ele vive entre o real e o imaginário de Lacan?


Crisney Barbosa

Psicanalista Didata e Clínico

Associado da Átria Psicanálise

Clique aqui para contato:


Referência:

CARVALHO, Antônio Pinto; DUFOUR, Méderic. Odisseia de Homero. São Paulo:editora Nova Cultura, edição, 2003

FERENCZI, Sandor, 1873 – 1933. Psicanálise II/ Introdução. Álvaro Cabral; revisão técnica e da tradução Claudia Berliner, 2ª ed. São Paulo. Editora Martins Fonte, 2011

 
 
 

4 comentários

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Marts
14 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

É raro encontrar alguém que consiga transitar com tanta naturalidade entre a literatura e a psicanálise, revelando nuances que passam despercebidas numa leitura comum.

Sem dúvida, é um privilégio poder dialogar com alguém assim — um profissional que não apenas compreende a complexidade do inconsciente, mas também a vive como experiência interpretativa profunda. Parabéns.

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14 de mai.
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Obrigado pelas observações

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Convidado:
13 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito bom!!

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Convidado:
14 de mai.
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Obrigado

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