Reflexões sobre o Trauma e a Subjetividade
- Renata Benassi

- há 6 horas
- 4 min de leitura
Sou psicanalista em formação, minha trajetória profissional percorreu caminhos da Educação, em especial, professora de alunos no Fundamental, depois coordenadora pedagógica. Entre os anos de 1989, quando conclui meu curso de magistério até 2018 onde já nesta jornada fiz minha faculdade de Pedagogia e minha Pós Graduação em Psicopedagogia Institucional, também lecionei em curso de Pedagogia no ensino superior.
Nesse percurso, adquiri uma ampla vivência no trabalho com famílias e alunos. Em meio a essas experiências, algo sempre se destacava e me marcava profundamente: Os traumas.
Esses traumas, muitas vezes invisíveis, escondidos nas histórias pessoais, revelavam-se como responsáveis por inúmeros sintomas. Manifestavam-se em comportamentos, dificuldades de aprendizagem e desafios no desenvolvimento psicossocial, tanto dos alunos quanto de seus pais.
A forma de pensar em como compreender os comportamentos humanos sempre me acompanharam, pois entrei na educação em uma época que se pensava mais em entender ou porque alguns alunos não aprendiam e ao longo do meu trabalho eu me empenhei em entender de onde vinham tantos comportamentos, emoções, reações, que hoje como Analista em Formação me vejo encantada com nosso mestre Freud.
Tenho muito a falar de toda minha carreira e minha vida que me levaram aos caminhos da psicanálise, mas neste texto, vou enfatizar o conceito do TRAUMA, na visão de Freud.
A situação do trauma sempre esteve muito presente nas minhas anamneses dos casos que atendia na escola.
Aprendi que o TRAUMA, é um conceito central em toda teoria de Freud. Então vamos lá.
Uma breve retomada Trauma por FREUD
Os primeiros estudos sobre a histeria, realizados em parceria com Josef Breuer no final do século XIX, Freud entendia o trauma como um acontecimento real que produzia um impacto emocional intenso e não podia ser adequadamente elaborado pela consciência.
Pois bem, segundo essa perspectiva, a energia psíquica associada à experiência traumática permanecia reprimida, manifestando-se posteriormente sob a forma de sintomas físicos e psicológicos.
Em outras palavras: quando uma pessoa é exposta a uma experiência ameaçadora e muito dolorosa, que excede sua capacidade de lidar com ela.
Esta experiência pode afetar a maneira como a pessoa se sente, pensa e age. Pode, também, levar a sintomas como ansiedade, depressão, insônia e dificuldade em se relacionar com outras pessoas. Aí vemos o trauma se manifestando através dos sintomas. No entanto, é importante lembrar que cada pessoa reage de maneira diferente a um trauma.
Uma grande observação de Freud foi que muitos pacientes histéricos apresentavam lembranças dolorosas que haviam sido excluídas da consciência. A partir dessa constatação, desenvolveu a ideia de que os sintomas neuróticos poderiam ser compreendidos como expressões simbólicas de experiências traumáticas reprimidas.
Ou seja, algo que foi escondido, o que eu não ver, lembrar, é recalcado no meu inconsciente.
O Trauma e o Inconsciente
Com o desenvolvimento da psicanálise, Freud passou a compreender o trauma como uma experiência que ultrapassa a capacidade do aparelho psíquico de processar e simbolizar determinado acontecimento. Quando isso ocorre, o excesso de excitação psíquica não encontra meios adequados de elaboração e permanece ativo no inconsciente.
Essa energia reprimida pode retornar de diferentes formas, como sonhos, lapsos de linguagem, sintomas neuróticos, angústias ou comportamentos repetitivos.
É importante entender que o trauma não desaparece com o tempo, ele continua exercendo influência sobre a vida psíquica da pessoa até que possa ser simbolizado e elaborado.
A impossibilidade de simbolizar este evento psíquico dificulta o individuo a prosseguir saudavelmente e ele continua a repetir o que lhe causa sofrimento.
A Compulsão à Repetição
Uma das contribuições mais importantes de Freud para a compreensão do trauma aparece em sua obra "Além do Princípio do Prazer" (1920). Nessa fase, ele observou que indivíduos traumatizados frequentemente repetiam aspectos da experiência dolorosa, mesmo quando isso lhes causava sofrimento. Freud denominou esse fenômeno de compulsão à repetição.
Em vez de evitar a situação traumática, o sujeito tende a reproduzi-la de maneira inconsciente, como uma tentativa de dominar ou elaborar aquilo que permaneceu sem representação psíquica adequada. Essa ideia ampliou significativamente a compreensão dos efeitos duradouros do trauma.
Trauma, Angústia e Defesa Psíquica
Para Freud, o trauma está intimamente ligado à angústia. Quando o aparelho psíquico se vê diante de uma situação que excede sua capacidade de controle, mecanismos de defesa são acionados para proteger o indivíduo do sofrimento excessivo. Entre esses mecanismos, destaca-se o recalque, responsável por afastar conteúdos dolorosos da consciência.
Importante, o recalque não elimina o conteúdo traumático. Ao contrário, ele permanece ativo no inconsciente, podendo reaparecer sob formas indiretas.
O trabalho terapêutico da psicanálise busca justamente possibilitar que o sujeito reconheça e elabore essas experiências, reduzindo seu impacto sobre a vida emocional.
Considerações finais
A compreensão do sofrimento psíquico mostra que os efeitos de uma experiência não dependem apenas de sua ocorrência objetiva, mas também de sua inscrição na realidade psíquica do sujeito. Esse registro mental passa a produzir impactos na vida emocional, influenciando seus comportamentos e relações.
Essa foi justamente uma das grandes observações que concluí ao acompanhar algumas famílias de alunos atendidos.
Ao destacar o papel do inconsciente, da repressão e da compulsão à repetição, Freud ofereceu instrumentos teóricos fundamentais para compreender os transtornos emocionais e desenvolver a clínica psicanalítica.
Ainda hoje, suas reflexões continuam a influenciar pesquisas e práticas terapêuticas, servindo de base para diferentes abordagens que investigam os efeitos do trauma na constituição da subjetividade humana.
Embora os desafios sejam grandes, acredito que a psicanálise nos abre caminhos para transformar a dor em aprendizado e ressignificar nossos traumas, permitindo uma vida mais plena.
Renata Benassi
Psicopedagoga
Psicanalista em Formação
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Excelente
Parabéns pelo texto.. É isso ai!!!