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Nem toda terapia é igual para todos: O que a ciência diz sobre trauma na infância e depressão crônica

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 8 de jun.
  • 3 min de leitura

Depois que começou a circular sobre PL 2386/2023 aumentou consideravelmente defensores da frase: “Só vale o que tem base em evidências”. No mundo da psicologia e da psiquiatria, essa afirmação é frequentemente usada para defender um tipo de abordagem como universalmente superior, e estão se posicionando assim. Geralmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).


Mas será que a ciência realmente apoia essa visão uniforme? Um estudo recente, publicado no British Journal of Psychiatry em 2024, traz uma resposta importante: "depende do paciente".


Pesquisadores alemães liderados por Lina Krakau e colaboradores investigaram exatamente isso: será que adultos com depressão crônica e histórico de trauma na infância respondem melhor à terapia psicanalítica (TPS) ou à terapia cognitivo-comportamental (TCC)? Os resultados são reveladores e merecem nossa atenção.


O que o estudo fez?


O estudo LAC (Long-term Psychotherapies of Chronically Depressed Patients) acompanhou 210 adultos com depressão crônica ao longo de 5 anos, comparando TCC e TPS em ambiente ambulatorial real, sem duração fixa pré-determinada (o que reflete melhor a prática clínica). Os participantes foram avaliados anualmente com o Inventário de Depressão de Beck (BDI-II) e relataram suas experiências de trauma na infância por meio do "Childhood Trauma Questionnaire" (CTQ).


A pergunta central: o histórico de trauma infantil modifica a resposta a cada tipo de terapia?


O que os resultados mostram?


"Participantes com trauma na infância se beneficiaram especialmente da terapia psicanalítica (TPS)”. Krakau et al., 2024.


O estudo encontrou uma interação tripla estatisticamente significativa entre trauma infantil, tempo e tipo de terapia. Traduzindo: pessoas com maiores níveis de trauma na infância tiveram redução significativamente maior dos sintomas depressivos quando tratadas com TPS em comparação com a TCC.


Curiosamente, em níveis baixos de trauma, ambas as terapias funcionaram igualmente bem. Mas conforme o trauma aumentava, a vantagem da TCC desaparecia, e a TPS se destacava.


Subescalas específicas do trauma que mais se associaram a esse efeito diferencial foram:

  • Abuso sexual

  • Inconsistência familiar (ambiente imprevisível, medo de que a família se desfizesse)


Os autores sugerem que a TPS, com seu foco em narrativas biográficas, relação terapêutica e elaboração de memórias implícitas, pode ajudar a restaurar a confiança básica profundamente abalada por traumas precoces.


E a TCC?


A TCC também funcionou, e bem. Não há demonização de nenhuma abordagem. O ponto é outro: A TCC não foi tão eficaz quanto a TPS para esse subgrupo específico. Isso contraria a narrativa de que “TCC é o padrão ouro para tudo”. A evidência mostra que diferentes mecanismos de mudança importam para diferentes histórias de vida.


Por que isso confronta o “só vale com base em evidências”?


Porque muitos que usam essa frase na prática estão, na verdade, ignorando evidências que não cabem em seus vieses teóricos. O movimento das “terapias baseadas em evidências” é essencial para combater charlatanismo, mas tornou-se, em alguns contextos, um dogma: só vale o que saiu de um ensaio clínico randomizado comparando TCC com lista de espera.


No entanto, o próprio artigo mostra que:


“Meta-análises divergem sobre se pessoas com trauma infantil respondem pior ao tratamento de primeira linha” e justamente por isso estudos de efetividade comparativa de longo prazo são tão necessários.


Se ignorarmos diferenças individuais como trauma precoce, capacidade de mentalização, confiança básica, estaremos aplicando uma “evidência média” a um paciente singular. Isso é má prática, não boa ciência.


Limitações que os críticos precisam considerar


O próprio estudo reconhece limitações: análise pós-hoc, perda de seguimento significativa, trauma avaliado por autorrelato. Mas isso não invalida o achado principal. Pelo contrário: mostra que a ciência de qualidade levanta hipóteses, não decretas verdades eternas.


Além disso, os pesquisadores controlaram estatisticamente por dose de sessões (a TPS teve mais sessões, em média, conforme diretrizes alemãs) e ainda assim o efeito diferencial permaneceu.


Considerações para o debate clínico


Dizer “só vale com base em evidências” sem perguntar para quem, em que condições, com que tipo de problema é usar a ciência como fantoche.


Este estudo de 2024 mostra que:

  • Para depressão crônica sem trauma grave, TCC e TPS são equivalentes.

  • Para depressão crônica com trauma infantil significativo, a TPS (Psicanálise) mostrou-se superior em 5 anos de seguimento.


Ou seja: a melhor terapia depende da história do paciente. E isso também é evidência.


Referência citada:

Krakau, L., Ernst, M., Hautzinger, M., Beutel, M. E., & Leuzinger-Bohleber, M. (2024). Childhood trauma and differential response to long-term psychoanalytic versus cognitive-behavioural therapy for chronic depression in adults. *The British Journal of Psychiatry*, 225(1), 446-453. Disponível em: https://doi.org/10.1192/bjp.2024.112

Acessado em junho/2026.


Gostou do texto? Compartilhe com aqueles colegas que ainda insistem que “só TCC tem evidência”. Nós Psicanalistas, também sabemos que a ciência evoluí e quem a usa de verdade se atualiza constantemente.

 
 
 

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