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Objeto em falta: o que o Seminário 4 de Lacan nos ensina sobre desejo, fobia e castração?

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Seminário 04 Laca

À primeira vista, a imagem da capa é uma cena é perturbadora: um pai devorando a própria prole. Mas, ao longo do Seminário 4, Jacques Lacan faz uma leitura bastante particular dessa imagem.


Longe de representar apenas a violência paterna, o quadro serve como pano de fundo para um dos medos centrais da infância, o medo de ser devorado pela mãe.



No famoso caso do pequeno Hans, analisado por Freud, vemos esse terror se deslocar para os cavalos. Lacan, porém, vai além: a castração não envolve somente o pai, mas também a mãe.


Ele propõe até uma anterioridade lógica da "castração materna", ligada à ameaça da mordida e da devoração, enquanto a castração paterna, marcada pela perda do falo, seria uma espécie de substituto simbólico da primeira.


O desejo é sempre desejo de outra coisa


Lacan sintetiza seus quatro primeiros seminários com uma ideia central: não existe objeto que não seja metonímico. Ou seja, todo objeto remete a outro. O desejo humano é sempre desejo do desejo do Outro, e o objeto que buscamos é, na verdade, um objeto perdido, um resto, o famoso "objeto a", que está na base da pulsão.


  • "O objeto é sempre, somente, um objeto reencontrado a partir de uma "descoberta" primitiva, e, portanto, a redescoberta jamais é satisfatória."


Essa frase de Lacan explica por que o desejo inconsciente é indestrutível: ele nunca se fixa definitivamente em algo, pois aquilo que falta é justamente o que move a busca. Diferente de Melanie Klein e sua ênfase nos objetos internos (seios bons e maus) ou de Winnicott e seus objetos transicionais, Lacan aposta na falta como estrutura fundamental. É por meio dela que ele reinterpreta Freud, organizando a experiência em três registros: frustração, privação e castração.


As três formas da falta


Frustração:

  • Ocorre na primeira infância, centrada no seio materno. Aqui, a mãe é o agente, e o objeto é real, mas a falta é vivida como um dano imaginário.

  • A criança reclama um objeto que não lhe é dado, e essa recusa instaura a ordem simbólica.

  • Como diz Lacan, "a criança se alimenta tanto de palavras quanto de pão". Quando a mãe recusa o amor (o "dom"), a criança pode regredir e se agarrar ainda mais ao seio real.


Privação:

  • Aqui, a falta é real. A criança em sua pulsão ao perceber essa diferença anatômica, (trata-se da ausência do pênis na mulher), se depara com um furo no real. O agente agora é o pai imaginário, aquele com quem rivalizamos, que aparece como o Outro da mãe.

  • A privação já implica simbolização: só podemos dizer que algo falta se pudermos representar sua presença possível.


Castração:

  • A mais decisiva das três. Seu agente é o pai real, e a falta agora é simbólica, vivida como dívida. O objeto em jogo não é o pênis real, mas o **falo imaginário**. É no Édipo que essa operação se consolida: a criança descobre que nem ela nem a mãe têm o falo, e que o desejo materno aponta para além dela. A castração, mais do que uma ameaça, é o que insere o sujeito na linguagem e na lei.


Lacan resume essas três operações em um quadro simples:

- Frustração: mãe simbólica + objeto real → dano imaginário> registro nas psicoses

- Privação: pai imaginário + objeto simbólico → furo real > registro nas perversões

- Castração: pai real + objeto imaginário → dívida simbólica > registro nas neuroses



A usina de significantes


  • Para entender como tudo isso se conecta, Lacan propõe uma analogia: imagine uma usina hidrelétrica no meio de um rio. A energia só nos interessa a partir do momento em que é medida e quando medimos, já não estamos mais na paisagem virgem. O real é como a corrente do rio: sempre existiu, mas só o apreendemos pela linguagem. O aparelho psíquico, portanto, é essa "usina de significantes" que transforma o corpo e o real em algo simbolizado.


"Desde que existem significantes que funcionam, os sujeitos estão organizados em seu psiquismo pelo jogo próprio desses significantes."


O Isso freudiano (das Es) não é natureza bruta; é o que, pela mensagem do Outro, pode tornar-se Eu. O Supereu, por sua vez, é o significante que marca nossa relação inescapável com a cadeia simbólica e os sintomas são seus efeitos.


Édipo e castração: meninos e meninas


  • Lacan admite que o Édipo freudiano é androcêntrico, mas não foge da questão:

    • O falo, no plano imaginário, é a única representação primitiva do genital. Importante: o falo não é o pênis. É um significante. Tanto meninos quanto meninas lidam com sua falta. A diferença é que a menina, ao perceber que não o tem, pode tê-lo simbolicamente e é aí que ela entra no Édipo.

    • Já o menino sai do Édipo quando percebe que só pode tê-lo como imaginário.


Antes mesmo do Édipo, na fase pré-edipiana, a criança (seu inconsciente) já tenta ser o falo imaginário da mãe. Mas chega um momento em que ela reconhece: a mãe também é privada desse objeto.

A partir daí, o falo deixa de ser algo que se "é" e passa a ser algo que se "tem" (ou não). A criança então se vê diante de um desejo materno que a ultrapassa.


Fobia, fetiche e angústia: três destinos da falta


Lacan usa dois casos clássicos para ilustrar essas operações: a Jovem Homossexual (Freud, 1920) e o pequeno Hans.


  • No caso da jovem, o que está em jogo é o dom, um filho do pai como signo de amor. Ao se frustrar, ela se identifica com o pai imaginário e busca na dama amada o pênis simbólico. O que se ama no outro, resume Lacan, é justamente o que lhe falta: "só se dá o que não se tem".


Fetiche:

  • O objeto fetichista é um símbolo do pênis que falta à mulher. Ele surge como uma figuração da falta sobre o véu da fantasia. O fetichista encontra um objeto estável, mas apenas no plano imaginário.


Fobia:

  • No caso Hans, o cavalo é o objeto fóbico. Ele representa ao mesmo tempo o pênis real (que começa a se agitar e provocar angústia), o pai rival e a mãe devoradora.

  • A fobia age como uma sentinela contra a angústia, transforma um vazio insuportável em um medo localizado. Lacan dirá que a fobia é um "sintoma à flor do significante".


Angústia:

  • Ainda em formulação no Seminário 4, Lacan a descreve como algo "sem objeto". Mais tarde, no Seminário 10, ele corrigirá: a angústia não é sem objeto, ele associa ao real, está atrás do véu do imaginário e do simbólico. No caso Hans, o pênis real é esse objeto.


Mito individual e sublimação


  • Lacan introduz ainda a ideia de mito individual do neurótico*: uma narrativa inventada pelo sujeito para dar conta de um impasse. Hans cria seu mito em torno dos cavalos; Leonardo da Vinci, em torno de seu próprio desejo sublimado.

    • *Esse tema, já abordamos nos desbravadores


  • Sobre a sublimação, Lacan critica a noção de "neutralização da libido". Para ele, sublimação é um processo de dessubjetivação do Outro, uma inversão das relações entre eu e outro imaginário.

  • Mais adiante, no Seminário 7, ele dará sua fórmula famosa: sublimar é "elevar o objeto à dignidade da Coisa".


Para fechar


  • O Seminário 4 é um marco na obra de Lacan porque nele a falta de objeto deixa de ser um acidente ou uma privação pessoal para se tornar a própria estrutura do desejo. Frustração, privação, castração, fobia, fetiche, angústia, todas essas experiências são modos de lidar com um buraco que nos constitui. E é nesse buraco, nesse objeto que nunca se tem, que o desejo encontra sua verdadeira força.


Referências-chave para se aprofundar:

- Freud: Três Ensaios, Caso Hans, Leonardo da Vinci, Fetichismo

- Lacan: Seminário 4 – A relação de objeto

- Leituras complementares: Winnicott, Klein, Fenichel, Abraham


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