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O que acontece quando o Nome-do-Pai não entra em cena? Uma introdução ao Seminário 3 de Lacan

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 11 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de mai.

Imagine uma criança pequena, ainda nos primeiros anos de vida. Ela vive em uma relação intensa, quase fusional, com sua mãe. A mãe para essa criança é o seu mundo. A mãe é que alimenta, a que acalma, o que pode aparecer e desaparecer. A criança não sabe exatamente o que a mãe quer, mas sente que ela deseja algo. É uma posição delicada, instável, potencialmente angustiante. Porque essa criança, naturalmente, também quer ser esse algo. Quer ser tudo para a mãe.


Em um segundo momento, algo (ou alguém) começa a intervir. Uma voz diz "não". Um gesto que interrompe, uma presença se anuncia. Esse algo é o que Jacques Lacan chamou de Nome-do-Pai, não se refere aqui ao pai físico, real, não o homem que vive na mesma casa, mas um significante. Ou seja, é toda palavra que carrega a lei, a autorização ou a proibição, a separação. Essa palavra diz, no fundo: "A mãe não é sua. Ela deseja outra coisa. Ela deseja o falo" e você não é o falo."


Para a maioria das crianças, essa intervenção é dolorosa, mas pode ser suportável, porque é possível. A criança faz o "luto" do rompimento dessa posição fusional. Nesse momento essa criança passa a se identificar com o pai (modelo) e assim, ela entra na ordem simbólica, no mundo das regras, das gerações, do social, da linguagem que articula o que se pode e o que não se pode.


É assim que se torna um sujeito neurótico (ou "normal", se é que isso existe). Por que se registou na ordem simbólica e cada um da sua maneira, com suas dúvidas, seus conflitos, suas próprias neuroses, mas ainda assim, ocupa um lugar no mundo, com a capacidade de se endereçar ao outro, de desejar, de se perguntar: "será que ela me ama?", "será que sou suficiente?", "será que sou desejada?". Ou seja, a capacidade de ter dúvidas e de sentir-se culpada.


Pois bem: este seminário de Lacan é sobre o que acontece quando essa inscrição não ocorre.


A foraclusão: quando o significante não entra


Lacan parte de um conceito freudiano pouco explorado, a "Verwerfung", e o traduz para o francês como "forclusion", essa palavra é um termo jurídico que significa a perda de um direito por não tê-lo exercido no prazo legal.


Importante saber que foraclusão não é o mesmo que recalque. Porque no recalque (típico da neurose), o significante está lá, inscrito, mas empurrado para o inconsciente. Ele pode retornar, disfarçado, no sintoma, no sonho, no ato falho.


A diferença é que na foraclusão, o significante nunca foi inscrito. Ele não está no inconsciente. Não está nem no consciente. Não está em lugar nenhum. Há um buraco na estrutura simbólica onde deveria estar o Nome-do-Pai, o significante que amarra a lei, a diferença sexual, a posição do sujeito no mundo.


E o que acontece quando um significante fundamental não é inscrito? Ele não desaparece sem deixar vestígios. Lacan formula isso em uma frase que é a essência deste seminário:


O que é rejeitado do simbólico reaparece no real.


No caso das Psicoses, o retorno no real é que causa a alucinação e o delírio


O real, aqui, não é a "realidade" (o mundo dos objetos, das percepções comuns). O real é aquilo que escapa à simbolização, que não pode ser dito, que retorna sempre no mesmo lugar, traumático, intrusivo, indubitável.


Quando o Nome-do-Pai é forcluído, ele não retorna como um significante (pois não foi inscrito). Ele retorna como pura presença, uma voz que comenta, que ordena, que insulta; uma certeza inabalável de que algo está errado no mundo; uma transformação íntima e estranha do próprio corpo.


É por isso que o psicótico não "acredita" em suas alucinações no sentido de uma crença que poderia ser abalada por argumentos. Ele tem certeza delas. Porque elas não são representações, opiniões ou interpretações. Elas são o próprio real irrompendo onde deveria haver um significante.


O delírio, para Lacan, é uma tentativa desesperada de reconstruir uma estrutura simbólica, a partir dos escombros. É uma "tentativa de cura", a única possível para quem foi confrontado com um buraco no próprio alicerce da subjetividade.


O Caso Schreber: (vol 12 das obras de Freud), o caso que ilumina a estrutura


O fio condutor do seminário é a análise que Freud fez das Memórias de um doente dos nervos (neurótico), Schreber, um magistrado alemão que teve um delírio elaboradíssimo no final do século XIX.


Freud em sua leitura, as memórias de um doente dos nervos (1903) como um caso clínico de paranoia. Ele observa que o delírio de Schreber se organiza em torno da fantasia de ser “a mulher de Deus”, e interpreta isso como uma defesa contra desejos homossexuais reprimidos, uma tentativa de restaurar o equilíbrio psíquico após a ruptura com a realidade.

Lacan lê esse caso, como um diagrama estrutural da psicose. A pergunta que organiza o delírio é: "O que é ser pai?", e a impossibilidade de respondê-la simbolicamente levou Schreber à feminização. Se não posso ter o falo (ocupar a posição paterna), então serei o falo, serei objeto do gozo do Outro. É uma solução, trágica e extraordinária.


O delírio como prótese simbólica


Uma das ideias mais surpreendentes (e mais mal compreendidas) de Lacan é que o delírio não deve ser combatido. Ele é a única estrutura que resta ao psicótico. Sem ele, o sujeito estaria entregue ao horror do buraco, à decomposição, ao silêncio absoluto.


O delírio é uma prótese, uma muleta. Ele permite ao sujeito continuar falando, se relacionando, habitando um mundo, ainda que esse mundo seja bizarro, persecutório, alienado ou grandioso.


Schreber, após anos de internação, estabilizou-se em torno da convicção de que era a mulher de Deus. Escreveu suas memórias, foi liberado, viveu. Não foi curado e continuou delirando. Mas o delírio tornou-se sua nova normalidade, sua maneira de existir diante do impossível.


O respeito por essa solução é a primeira condição de uma clínica psicanalítica da psicose. Não se trata de adaptar o psicótico à realidade, (pois sua realidade é outra), nem de desmontar o delírio, (seria como arrancar a muleta de um aleijado). Trata-se de estabilizar, de sustentar, de permitir que a construção delirante se torne, na medida do possível, um modo de vida habitável.


Por que isso importa hoje?


O Seminário 3 (1955-1956). Setenta anos depois, suas lições Têm devida importância, talvez mais do que nunca. Em uma época que exige adaptação, produtividade, "normalidade", o pensamento de Lacan nos lembra que a subjetividade não é uma casa pronta. Ela é uma construção precária, dependente de significantes que nos antecedem, que não escolhemos, e que podem faltar.


A psicose não é uma "doença mental" entre outras. É uma estrutura, uma maneira radicalmente diferente de habitar a linguagem, o corpo e o mundo. Compreendê-la não significa explicar suas causas biológicas ou compreender seus sentimentos. Significa, como Lacan nos ensina, decifrar a lógica de seu funcionamento, respeitar a solução que o sujeito encontrou, e sustentar, quando possível, um pouco de alívio nessa existência sempre à beira do buraco.


O psicótico, diz Lacan, "ama seu delírio como a si mesmo". Seu delírio é sua identidade, seu escudo, seu último reduto. Antes de tentar curá-lo, é preciso aprender a escutá-lo.


Para saber mais:


Este texto é uma introdução ao Seminário, livro 3: As psicoses, de Jacques Lacan, publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editora. A leitura direta do seminário, com seus exemplos clínicos, suas análises linguísticas e sua leitura minuciosa do caso Schreber é uma experiência formativa para quem se interessa pela psicanálise, pela psicopatologia e pela questão, sempre aberta, do que nos torna (ou não) sujeitos.


Gostou? Compartilhe. Tem dúvidas? Deixe nos comentários. Este texto faz parte de uma série sobre os conceitos fundamentais vistos no Curso de Aperfeiçoamento na Clínica lacaniana. Clique aqui! Para saber mais sobre o curso.

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14 de mai.

Ótima observações Lacaniana

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