Seminário 5: As formações do inconsciente – Onde o chiste, o lapso e o sintoma revelam que o inconsciente fala
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 8 de jun.
- 5 min de leitura
Você já disse algo e pensou: "Por que eu disse isso?"
Pois é. Quem primeiro se debruçou sobre esses pequenos tropeços da linguagem foi Freud, em "A Psicopatologia da vida cotidiana" (livro publicado em 1904). Lapsos de memória, atos falhos, esquecimentos de nomes. Tudo isso, para Freud, não era acaso. Era o inconsciente falando nas brechas da consciência.
Lacan pegou essa descoberta e a levou ao extremo. No Seminário 5, as formações do inconsciente (1957-1958), ele dedicou um ano inteiro a mostrar que esses fenômenos não são apenas "curiosidades" da vida cotidiana. Eles obedecem a leis rigorosas, as mesmas leis da linguagem: metáfora e metonímia. O chiste, o lapso, o sintoma, o sonho... todos são formações do inconsciente operando como significantes. Se Freud abriu a porta, Lacan instalou a fechadura, a chave e escreveu o manual de instruções.
Enquanto no Seminário 4 (A relação de objeto) ele nos ensinou que o objeto é sempre marcado pela falta, no Seminário 5 ele vai mais fundo: como o inconsciente se manifesta? Através de chistes, lapsos, atos falhos, sonhos, sintomas. E tudo isso obedece a uma estrutura, a mesma estrutura da linguagem.
Vamos entender o que Lacan nos apresenta.
Por que começar pelo chiste (a piada inteligente)?
Parece estranho, não? Um seminário de psicanálise começar falando de piadas. Mas Lacan é sagaz: O chiste é a formação do inconsciente mais próxima da consciência. Todo mundo já fez um trocadilho, já riu de uma piada, já soltou um "familionário" sem querer.
O exemplo clássico (de Freud, retomado por Lacan): um personagem de Heine diz que foi tratado "muito familionariamente". A palavra não existe. É a junção de "familiar" e "milionário". O que aconteceu ali? Uma condensação, dois significantes se comprimiram em um.
"O inconsciente não é um depósito de pulsões brutas. É uma máquina de fazer trocadilhos." (Lacan, parafraseado)
O chiste precisa de três pessoas:
Aqui está o pulo do gato. O chiste não é piada sozinha. Precisa de três:
1. Quem conta (o sujeito)
2. Quem ouve (o pequeno outro)
3. Quem sanciona como espirituoso (o grande Outro)
Sem essa sanção, o "familionário" seria só um erro, um lapso. É o Outro que diz: "Isso foi espirituoso!" E aí vira chiste.
"O inconsciente é o discurso do Outro." (Lacan)
Traduzindo: o que fala em mim não sou "eu", é a cadeia significante que me constituiu antes de eu nascer. O Outro é o lugar dessa cadeia.
Metáfora e metonímia: as duas leis do inconsciente
Lacan toma emprestado da linguística (Jakobson) dois conceitos fundamentais:
Operação | O que é | No inconsciente | Exemplo |
Metáfora | Substituição | Condensação (sonho, chiste, sintoma) | Familionário" (familiar + milionário) |
Metonímia | Deslocamento | Deslocamento (desejo que nunca se fixa) | "Beber um copo" (o copo pelo líquido) |
O que isso quer dizer na prática?
Seu sonho, seu lapso, seu sintoma não são "símbolos" de algo escondido. Para Lacan, eles são operações sobre significantes. O analista não decifra como um tradutor de hieróglifos. Ele escuta como um operador de linguagem.
O Nome-do-Pai: o significante que sustenta a lei
Lacan reintroduz um conceito que já aparecia no Seminário sobre a psicose: o "Nome-do-Pai". Não é o pai real (físico, seu genitor). É um significante, aquele que autoriza ou interdita cadeia significante como lei.
Quando esse significante é foracluído (rejeitado do simbólico), o sujeito não tem acesso à metáfora paterna. O que é rejeitado do simbólico, retorna no real: alucinações, delírio, vozes.
"Na psicose, o Outro fala com o sujeito. Na neurose, o Outro fala no sujeito." (Lacan)
Os três tempos do Édipo (versão lacaniana)
Lacan não abandona o Édipo. Mas o relê de uma maneira nova:
Tempo | O que Acontece | Registro |
1º Tempo | A criança quer ser o falo (objeto do desejo da mãe) | Imaginário |
2º Tempo | O pai intervém como proibidor, priva a mãe | Simbólico (mediado) |
3º Tempo | O pai se revela como aquele que tem o falo, identificação com o Ideal do eu. | Simbólico (direto) |
Observações: O Édipo não é um drama familiar. É uma metáfora, a substituição do significante "pai" no lugar do significante "mãe". O falo é o significado que emerge dessa metáfora.
O falo não é o órgão genital
Aqui está o ponto que mais confunde iniciantes. Quando Lacan fala do falo, ele não está falando do pênis. O pênis é um órgão real. O falo é um significante. É o que marca o desejo. É o que falta ao Outro. "O falo é o significante do desejo." (Lacan)
- No homem (que tem o pênis), o falo opera como ameaça de castração.
- Na mulher (que não tem o pênis), o falo opera como objeto do desejo (ser o falo para o Outro, ou ter o falo como dom).
- Não é biologia. É estrutura.
A histeria e a obsessão: duas formas de lidar com o desejo
Estrutura | Relação com o desejo | Exemplo clínico |
Histérica | O desejo está no Outro, é enigmático, insatisfeito | A bela açougueira: cria um desejo de caviar para não ter que realizá-lo. |
Obsessivo | O desejo é anulado, desaparece quando se aproxima | Demanda de morte: pedir algo é, no fundo, matar o Outro. |
O sonho da bela açougueira (análise de Freud*, retomada por Lacan):
*Este sonho consta na obra de Freud - A interpretação dos Sonhos (1901).
A paciente sonha que não pode oferecer um jantar. Falta tudo. Freud descobre: ela criou um desejo insatisfeito (caviar) para manter o marido desejando-a. Se ele desse o caviar, o jogo acabaria. "A histérica não quer o objeto. Ela quer desejar." (Lacan)
Transferência e sugestão: a diferença crucial
Muitos analistas confundem transferência com sugestão. Lacan é taxativo:
Sugestão:
Opera no nível da demanda. O paciente pede, o analista (em geral) não dá. Mas mesmo não dando, ele já está no jogo da demanda.
Transferência:
Opera no nível do desejo. O analista não é o objeto do desejo. Ele é o lugar do Outro, aquele que permite que o desejo se articule.
"A transferência não é um poder do analista. É a abertura da possibilidade de articular o desejo do Outro." (Lacan)
O que o analista faz? (Resposta final do seminário)
Lacan termina o seminário com uma frase lapidar, que ecoa o famoso "onde Isso era, Eu devo advir"
"O sujeito não deve se tornar o falo. Deve assumir o lugar vazio onde o falo opera como significante." Lacan.
O analista não dá o objeto. Não consola. Não preenche a falta. Ele opera sobre o significante, faz cortes, aponta lapsos, devolve a mensagem invertida. E, um dia, o paciente pode dizer:
"Não sou o que falta. Não tenho o que falta. Estou no lugar onde a falta se articula."
Resumo para você não se perder
Conceito | Tradução prática |
Formações do inconsciente | Chistes, lapsos, sonhos, sintomas – todos operam por metáfora e metonímia |
Metáfora | Substituição (condensação) – ex: familionário |
Metonímia | Deslocamento – ex: beber um copo |
Nome-do-Pai | Significante que autoriza a lei. Sua falta = Psicose |
Metáfora paterna | O pai substitui a mãe na cadeia significante, isso é o Édipo. |
Falo | Significante do desejo. Não é o pênis. |
Histérica | Desejo enigmático, insatisfeito, no Outro. |
Obsessivo | Desejo anulado, demanda de morte. |
Transferência | Não é sugestão. É a abertura para articular o desejo do Outro |
Reflexão:
"O inconsciente não é uma caixa de segredos. É uma máquina de fazer trocadilhos. O analista não decifra. Ele joga. E, um dia, o paciente aprende a jogar também."
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