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O que move a gente? Uma viagem pela teoria das pulsões de Freud

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 7 de mai.
  • 6 min de leitura

Temas associados: Pulsão, desejo, representação e afeto, o que a psicanálise tem a dizer sobre o que nos empurra?


Introdução (para quem nunca leu Freud)

Você já se sentiu movido por algo que não sabe bem o que é?

Uma força interna, meio corpo, meio mente, que pede passagem – mas não se deixa ver diretamente?


Freud chamou isso de pulsão (Trieb). E fez questão de não confundir com instinto.

  • Instinto é fixo, biológico, espécie específico.

  • Pulsão é plástica, desviante, cheia de atalhos.


Neste texto, vamos explorar como Freud construiu esse conceito e o que ele tem a ver com sua vida, seus sintomas, seus desejos e até com seus sonhos. É um passeio comentado pela metapsicologia freudiana, inspirado no trabalho de Garcia Roza.


1. O que é metapsicologia? (e por que você deveria se importar)


  • Metapsicologia não é um bicho de sete cabeças. É apenas o nome chique que Freud deu para três modos de olhar um mesmo fenômeno psíquico:

    • Visão tópica: onde isso acontece? (consciente, pré-consciente, inconsciente)

    • Visão dinâmica: quais forças estão em conflito? (desejo vs. defesa, amor vs. ódio)

    • Visão econômica: quanta energia está ali investida?


Um exemplo clínico para elucidar o tema:

  • Uma pessoa sonha repetidamente que está caindo de um prédio.

    • Tópica: a queda representa algo inconsciente (medo de perder o controle)

    • Dinâmica: há um conflito entre querer desmoronar e precisar se segurar

    • Econômica: a energia desse conflito é tanta que acorda o sonhador com taquicardia.


O que o analista faz?

  • Não interpreta o sonho narrado. Mas poderia perguntar:

    • “O que em você cai quando ninguém vê?


Função do analista:

  • O analista não sabe mais do que o analisante sobre o inconsciente dele.

  • Sendo assim, ele atua como causa do desejo do analisante, sustentando o espaço para que o inconsciente se manifeste.

  • Suas intervenções (perguntas, silêncios, repetições, cortes) são ferramentas para despertar o saber inconsciente que o sujeito já possui, mas não consegue acessar sozinho.


Neste exemplo, o analista não interpreta o sonho como se fosse um código a ser decifrado. Se ele disser: "cair significa medo de fracasso" isso seria adivinhação, não psicanálise.


Em vez disso, ele faz uma pergunta que convida o paciente a associar livremente.


Exemplo do sonho de queda:

  • Paciente: "Sonhei que caía de um prédio."

  • O que o analista NÃO faz:

    • "Você tem medo de perder o controle." (interpretação fechada, fechada, autoritária);

  • O que o analista faz: (exemplo de intervenção suscinta):

  • "O que em você cai quando ninguém vê?"


Por que essa pergunta é mais assertiva?

  • Não fecha o sentido, então será o paciente é quem vai produzir respostas.

  • Trabalha com a metáfora: "cair" pode ser vergonha, desejo, abandono, prazer.

  • Respeita o inconsciente e seu tempo, que é diferente de fazer interpretações precoces.

  • Convida à associação: O paciente vai lembrar de quedas reais, afetos, cenas infantis, de medos, de fracassos etc.


E o que o analista espera?

  • Não uma resposta imediata, mas que o paciente, ao longo de sessões, construa sua própria significação, muitas vezes sem nunca "traduzir" o sonho completamente.


Regra de ouro:

  • O analista deve desenvolver essa habilidade, ou seja, perguntar, mas sem esperar respostas. O paciente pode responder ou não. é É ai, que o inconsciente trabalha, nesses intervalos.


2. Pulsão: a fronteira entre o corpo e a mente


  • Freud definiu pulsão como um conceito na fronteira entre o somático e o psíquico.

  • A Pulsão nunca aparece no estado original, ou só vestida de representações (ideias, imagens, cenas) e afetos (raiva, medo, prazer, vergonha).


Não confunda:

Instinto

Pulsão

É inato, previsível

É construída, singular

Exige objeto real (alimento, abrigo)

Cria objetos (reais ou imaginários)

Acaba com a necessidade

Nunca se satisfaz plenamente


Exemplo do dia a dia:

  • Você abre a geladeira sem fome, só para mastigar algo.

  • Isso não é instinto de fome.

  • É pulsão oral. Sua boca pede, não comida, mas prazer, consolo, repetição, gratificação.


  • O que o analista faz? Não recomenda dieta.

    • Pergunta: “O que sua boca quer dizer que sua fome não sabe?"


3. Representantes psíquicos: ideia e afeto (dois destinos diferentes)


A pulsão não é uma “coisa” dentro de você. Ela só é conhecida por dois representantes:


  • Representante ideativo:

    • Uma imagem, uma cena, uma palavra inconsciente.

    • Ex.: a lembrança apagada do peito da mãe, do cheiro do pai, de um grito.


  • Afeto

    • A parte que você sente (raiva, alegria, angústia, vergonha).

    • O afeto pode estar solto, sem ideia e aí você sente algo sem saber por quê.


Insight importante:

  • Não existe “afeto inconsciente”. O inconsciente é feito de ideias.

  • O afeto é sempre sentido, mas pode estar "desligado" da ideia que o causou.


Exemplo clínico (caso típico):

  • Um paciente sente vergonha intensa ao falar qualquer coisa na frente dos outros.

  • Mas não sabe de quê. Não fez nada errado.

  • A vergonha é real – mas a ideia (a cena infantil original) está recalcada.


4. Os quatro destinos da pulsão (o que acontece com ela quando não pode ser vivida)


A pulsão só quer uma coisa: satisfação.

Mas o mundo, a moral, o medo – enfim, a vida – fazem com que ela se desvie.


São 4 destinos principais:

1. Reversão ao oposto:

  • Ativo vira passivo (ex.: bater → ser batido)

  • Amor vira ódio (ambos ativos)


2. Retorno sobre o próprio eu:

  • A violência que iria para o outro volta contra você mesmo.

    • Ex.: autossabotagem, culpa excessiva, automutilação velada.


3. Recalcamento:

  • A ideia é impedida de vir à consciência. Mas continua operando.

    • Ex.: você não lembra do trauma, mas repete ele em atos.


4. Sublimação

A energia é desviada para algo socialmente valorizado: arte, ciência, trabalho.

*Ex.: a agressividade vira competição esportiva; o voyeurismo vira fotografia.*


Exemplo do cotidiano:

  • Um adolescente agressivo, quando adulto, se torna um cirurgião brilhante.

    • Cortar os outros virou, agora cortar com bisturi para salvar.

    • Nem sempre há sofrimento, às vezes, há sublimação. (veremos isso mais adiante)


5. Sadismo, masoquismo, voyeurismo, exibicionismo: todos temos um pouco


  • Freud mostrou que esses “perversos” são figuras normais do psiquismo.

  • Todo sádico também é masoquista (por identificação com a vítima).

  • Todo voyeur também é exibicionista (goza do olhar do outro sobre si).


A sequência típica (exemplo do sadismo → masoquismo)

  • 1. Bater no outro (ativo)

  • 2. Torturar-se (retorno sobre o eu)

  • 3. Ser batido por outro (masoquismo)


O que isso explica?

  • Pessoas que foram agressivas na infância podem se tornar adultos que se punem, e até sentem prazer nisso. O circuito se fechou.


Uma Intervenção possível:

  • "Você já percebeu que, sempre que alguém te machuca, há uma parte sua que parecia estar esperando por isso?”


6. Amor e ódio: a dança das polaridades


  • Uma das ideias mais bonitas e difíceis de Freud:

  • O contrário de amor não é ódio, é ser amado.

  • Amor e ódio são ativos. Ambos podem coexistir (ambivalência).


### As três polaridades da vida mental:

  • Sujeito vs Objeto (real)

  • - Prazer vs Desprazer (econômica)

  • - Ativo vs Passivo (biológica)


Exemplo clínico:

  • Você ama intensamente seu parceiro.

  • Ele falha uma vez e você sente ódio.

  • Não é o fim do amor. É a reversão de conteúdo (amor virou ódio) dentro da mesma atividade.


O analista ajuda a suportar a ambivalência:

  • “Dá pra sentir ódio e ainda assim continuar amando? Ou o ódio exige que o amor morra?”


7. Pulsões do ego vs. pulsões sexuais (um dualismo que Freud abandonou)


No começo, Freud separou:

  • Pulsões do ego (autoconservação, fome, realidade)

  • Pulsões sexuais (prazer, fantasia, princípio de prazer)

  • Mas logo viu que isso não funcionava.

  • A fome não é pulsão, é instinto. E o amor-próprio (narcisismo) mistura os dois.


O que veio depois:

  • Em 1914: só há uma energia: chamado de libido: (libido do ego / libido objetal)

  • Em 1920: novo dualismo: pulsões de vida (Eros) vs. pulsão de morte (Tanatos)

  • Pulsão de morte não é “vontade de morrer”.

  • É a tendência à repetição, ao desligamento, à redução total da tensão.


Exemplo:

  • Pessoas que repetem sempre o mesmo tipo de relação dolorosa.

    • É a pulsão de morte operando de forma silenciosa.


8. Destinos do afeto: quando o corpo fala pelo sintoma


  • Diferente da ideia, o afeto não pode ser recalcado.

  • Mas ele pode ser transformado, deslocado ou trocado.

  • Três mecanismos (descobertos por Freud ainda no século XIX):

    • Transformação: Histeria de conversão (paralisia, cegueira, afonia)

    • Deslocamento: Obsessão (angústia ligada a lavar as mãos, não ao desejo)

    • Troca de afeto: Melancolia (amor vira ódio de si)


Exemplo clássico:

  • Uma enfermeira presencia um erro médico grave. Não fala nada.

  • No dia seguinte, perde a voz.

  • A afonia não é fingimento. É o afeto "transformado" em sintoma corporal.


Considerações: pulsão não é destino, é matéria-prima


  • A teoria freudiana das pulsões não é uma prisão biológica.

  • Ela é um instrumento para escutar a si mesmo, aos outros, aos sintomas.

  • Entender que:

    • A pulsão se apoia no instinto, mas dele desvia;

    • Ela nunca aparece pura, só via representações e afetos;

    • Seus destinos são múltiplos (ódio, sintoma, sublimação, recalcamento);

    • O conflito é estruturante, não apenas patológico.


Tudo isso nos ajuda a ter uma relação menos ingênua e menos moralista com o desejo.


E você? O que tem movido sua vida?

Você já sentiu uma força interna que não sabia nomear?

Já viveu a reversão do amor em ódio?

Ou percebeu que repete um sofrimento como se ele fosse familiar?


Comenta aqui embaixo!


E se quiser aprofundar algum desses tópicos (ex.: pulsão de morte, narcisismo), pede nos comentários que o próximo post pode ser sobre ele.


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Referência base:

Garcia Roza – Freud e o Inconsciente (capítulo 4 – Pulsão e Representação)


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