Psicanálise, a mulher e a concepção religiosa do evangelho
- Crisney Barbosa

- há 3 dias
- 5 min de leitura
Quando ouvimos as definições de feminismo e seu choque com a ideia de tradicionalismo, percebemos que os Evangelhos apresentam um Jesus bastante avançado para sua época no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade. Suas interações revelam acolhimento, respeito e uma proposta de transformação subjetiva que dialoga, em certa medida, com a perspectiva da psicanálise.
Primeiramente, observemos Maria Madalena. Embora a tradição popular frequentemente a tenha associado à figura da pecadora ou da prostituta, os Evangelhos mostram uma mulher que experimentou profunda transformação após seu encontro com Jesus. Em uma sociedade marcada pelo machismo, pelo autoritarismo e pelo preconceito, sua condição certamente a colocava em posição de exclusão.
Jesus, porém, não a reduz ao seu passado. Ele a acolhe, não a julga e reconhece nela a possibilidade de mudança. Essa não é também uma das bases da escuta psicanalítica? Não se trata de julgar, mas de acolher o sujeito em sua singularidade. Maria Madalena torna-se uma fiel seguidora de Jesus e dedica sua vida ao anúncio da Boa-Nova (Evangelho de Lucas 8,1-3). Sua história nos mostra que a transformação é possível quando há acolhimento, reconhecimento e espaço para reconstruir a própria trajetória.
Mas não encontramos apenas Maria Madalena. Outro exemplo significativo aparece em Lucas 8,43-48, na narrativa da mulher que sofria de hemorragia havia doze anos.
"Certa mulher que havia doze anos sofria de uma hemorragia, e a ninguém pudera ser curada."
Vale destacar que essa mulher vivia à margem da sociedade. Sua condição a tornava socialmente excluída. Poucos se preocupavam com seu sofrimento; muitos preferiam afastá-la. Seria pela doença? Pela condição feminina? Ou por ambos os fatores?
Em meio à multidão, ela toca as vestes de Jesus, movida pela esperança de ser curada. Jesus percebe esse gesto e reconhece a força de sua fé. Mais do que uma cura física, há um reconhecimento de sua existência e de seu sofrimento. Aquela mulher, que poderia permanecer oculta, apresenta-se diante dele e relata o que aconteceu.
Jesus não a condena nem a repreende. Pelo contrário, dirige-se a ela com ternura:
“Minha filha, tua fé te salvaram; vai em paz."
Como psicanalistas, aprendemos que acolher, perceber e escutar são atitudes fundamentais. Cada paciente é único em sua história e em seu sofrimento. Naquele encontro, aquela mulher tornou-se única no olhar de Jesus. Ele interrompeu seu caminho para ouvi-la, reconhecê-la e devolver-lhe a dignidade.
Essas narrativas nos convidam a refletir sobre a importância da escuta e do acolhimento. Assim como Jesus enxergava para além dos rótulos e preconceitos de sua época, a prática psicanalítica busca escutar o sujeito para além de seus sintomas, oferecendo um espaço onde sua história possa ser compreendida e ressignificada.
Lembrando que Jesus, ao passar por Samaria, aproximou-se da fonte de Jacó, conforme narra o Evangelho de João (4,1-39). Ali acontece o encontro com a mulher samaritana, em um diálogo profundo sobre a água e a vida.
Logo nos primeiros versículos, percebe-se a discriminação social expressa pela própria mulher ao dizer: "Como sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?". A partir desse questionamento inicia-se uma conversa marcada pela acolhida, pela escuta e pela reflexão.
Jesus revela-se atento à história daquela mulher e a convida a olhar para sua própria vida. Quando lhe pede que chame seu marido, o diálogo avança para questões mais profundas, como a adoração, a fé e a relação com Deus. Nesse encontro, ela escuta Jesus e também é escutada por Ele.
Transformada por essa experiência, a mulher deixa seu cântaro, corre para a cidade e anuncia a chegada do Messias. Torna-se mensageira da Boa Nova, assumindo um papel ativo na transformação social e espiritual de sua comunidade. Ela testemunha que o Messias falou com ela e a reconheceu em sua singularidade.
A mudança começa no encontro com o outro. Começa na palavra, na escuta e no diálogo. É falando e sendo ouvido que o sujeito pode ressignificar sua história e abrir-se para novas possibilidades de existência. Lacan fala sobre esse encontro com o outro, esse olhar para o outro e a percepção que temos.
Figuras interessantes d evangelho e Marta e Maria (Lucas 10:38-42) Quando Jesus visitou sua casa, Marta ocupou-se com os afazeres para receber os convidados, enquanto Maria sentou-se aos pés de Jesus para ouvi-lo.
Marta ficou preocupada e pediu que Jesus dissesse a Maria para ajudá-la. Jesus respondeu:
"Marta, Marta, andas inquietas e te preocupas com muitas coisas; entretanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada."
A lição que aprendemos entre Jesus e Marta e Maria:
Marta representa a dedicação ao serviço e às responsabilidades.
Maria representa a escuta, a contemplação e a intimidade com Deus.
Percebe esses momentos é o princípio para aliviar as preocupações dos pacientes que adentram os consultórios, Jesus não critica o trabalho de Marta, mas percebe a responsabilidade e dela, não critica a devoção de Maria e sim escuta sua presença.
E como não falar de sua mãe Maria, que nas Bodas de Caná, narradas no Evangelho de João (Jo 2,1-11), Maria desempenha um papel fundamental. Ela percebe que o vinho da festa acabou e leva a necessidade a Jesus, dizendo: "Eles não têm mais vinho." Depois, orienta os serventes com uma das frases mais conhecidas da Bíblia: "Fazei tudo o que Ele vos disser." Aqui a mulher e seu papel de instruir, evoluir na sociedade, quebrando os paradigmas de uma sociedade que não observava a mulher em sua completude, liderança, aquela que percebe que o vinho acabou, mas aquela que percebe seu papel na história, na vida do outro, seu papel na vida de seu filho, e orienta fazei tudo que ele solicitar.
Maria percebe a necessidade antes dos demais. Ela confia plenamente em Jesus. Ensina a obediência, mas ensina que ela está ali observando "Fazei tudo o que Ele vos disser."
A psicanálise começo assim, pela escuta durante o tratamento, Breuer percebeu que, ao falar sobre lembranças e emoções ligadas a experiências dolorosas, alguns sintomas diminuíam. A própria Anna O. chamou esse processo de "talking cure" ("cura pela fala"). Freud escutou a fala de uma mulher e a psicanálise surgiu, a mulher mudou a concepção de Freud, e a escuta e a transferência que hoje podemos dizer que são os dois pilares primordiais dos estudos da psicanálise.
Crisney Barbosa
Psicanalista Didata, Clínico e neuropsicanalista
(11) 55 11 95827-4781
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Referências do artigo:
Bíblia de Jerusalém, traduções e notas de La Sainte bible, edição de 1973
BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria (1893-1895). São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
LACAN, Jacques, 1901 -19821. Seminário 1: os quatro conceitos da psicanálise (1964) 2º edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2008



A mulher, à luz do Evangelho, ocupa um lugar profundamente digno e transformador. Em figuras como Maria, vemos não apenas a obediência à vontade divina, mas também a força silenciosa, a fé firme e a capacidade de acolher o mistério de Deus. O próprio Jesus Cristo rompeu barreiras culturais ao valorizar, escutar e dignificar as mulheres, mostrando que, no Reino de Deus, há espaço de igualdade, amor e respeito.
Dentro dessa perspectiva tão rica, é admirável perceber como a psicanálise pode dialogar com a fé. Você Crisney atuando como psicanalista demonstra uma sensibilidade rara ao abordar a mulher não apenas em sua dimensão psíquica, mas também espiritual, reconhecendo suas dores, sua subjetividade e sua grandeza. Seu olhar é humano, acolhedor…
Reflexões como esta deveriam ser parte do cotidiano, pois mostra o quando a posição da mulher erabimportante para Jesus, e o quanto existe na sociedade a necessidade de se reconhecer esta importância. Porém, triste é ver que atualmente aqueles que dizem seguir o evangelho, seguem a visão dos algozes e dos carrascos, não do Messias que dizem acreditar.
Discussões como essa enriquecem o diálogo entre fé, história e comportamento humano. Parabéns pela abordagem.
Esse artigo ele surgiu de um sonho que tive, e a parti dela ampliei essa visão e o paralelo psicanálise e evangelho na questão da escuta
Uma ponte maravilhosa entre a escuta de Jesus e a escuta psicanalítica