O que a psicanálise diz sobre desejos sexuais considerados “desviantes”? Um caso clínico
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 5 de mai.
- 4 min de leitura
Entenda como uma jovem de 22 anos desenvolveu práticas sadomasoquistas com fezes, urina e sangue, segundo a visão freudiana
Adaptado do Texto original de Joice Cordeiro Dos Santos - UniOeste
Objeto de estudo:
Caso clínico de uma paciente de 22 anos, J., com desejos e comportamentos sexuais classificados como perversos (sadomasoquismo, voyeurismo, exibicionismo, fetichismo envolvendo fezes, urina e sangue menstrual).
Introdução:
J., 22 anos. Solteira. Chegou à terapia com crises de ansiedade, pânico e raiva. Só depois de algumas sessões revelou algo que a incomodava e ao mesmo tempo a fascinava: seu desejo sexual era “sujo”. Ela dizia: “Sexo tem de ser sujo e nada bonito”.
Entre as práticas que lhe davam prazer estavam:
Sexo com elementos que causavam dor e submissão (sadomasoquismo)
Exibicionismo e voyeurismo
Uso de fezes, urina e sangue menstrual nas relações
Exposição de fotos sensuais em redes sociais
J. não queria tratar esses desejos. “Se tiver algo errado nisso, não quero mudar”, afirmava.
O que a psicanálise diria sobre ela?
Este artigo resume um estudo de caso real, conduzido por duas psicanalistas, que analisaram Joana à luz de Freud e outros autores.
O que é perversão para a psicanálise?
Para Freud, a palavra “perversão” não tem um sentido moral. Significa apenas um desvio no desenvolvimento sexual. Explico:
Na infância, nossa sexualidade é “polimorfa perversa”: sentimos prazer em várias zonas do corpo (boca, ânus, pele) sem uma finalidade reprodutiva.
Com o tempo, a libido (energia sexual) deveria se organizar sob a primazia genital (foco nos genitais, relação com um parceiro, desejo de reprodução).
Se isso não acontece, se a pessoa continua fixada em fases anteriores (oral ou anal), temos aí uma possibilidade de estrutura perversa.
No caso de Joana, as autoras em seu texto original, concluíram que ela ficou presa na fase anal sádica (1 a 3 anos de idade). Nessa fase, o prazer está ligado ao controle das fezes, ao sujo, ao agressivo e à necessidade de manipulação, (poder).
O que causou essa fixação em J.?
A análise revelou três fatores principais:
Relação simbiótica com a mãe:
A mãe tratava J. como um bebê eterno.
Ela relata na terapia o que a mãe falava:
“Mesmo quando ela tiver 50 anos, vou tratá-la como aquele bebê indefeso”.
A mãe nunca permitiu que o pai tivesse voz.
Exclusão do pai:
O pai era rígido e religioso, mas afastado. Ou seja presente, mas ausente na sua função.
Sem uma figura paterna que impusesse limites e separasse a relação fusional mãe filha, sendo assim, J. não desenvolveu o complexo de Édipo de forma saudável.
Gravidez indesejada e risco de morte ao nascer:
E agora analista? Deve-se tratar ou aceitar?
As autoras são claras: o papel do psicanalista não é julgar ou “curar” os desejos sexuais de J. Em vez disso, buscou-se:
Compreender como esses desejos se formaram
Aliviar os sintomas que a faziam sofrer (ansiedade, pânico, raiva)
Respeitar sua organização psíquica
J. não queria perder o prazer que obtinha com suas práticas.
E a análise não forçou isso.
O que o caso ensina é que os desejos sexuais considerados “bizarros” muitas vezes são a linguagem de uma história infantil mal resolvida, não uma escolha consciente de “perversão”.
O que podemos aprender com esse caso?
A sexualidade humana é muito mais complexa do que “normal × anormal”. Não podemos reduzir as vivências sexuais a um binário: ou é saudável ou é doentio, isso é o que já fazem, não devemos ignorar a riqueza e a diversidade do desejo humano.
Muitas vezes, o que chamamos de “desvio” é apenas uma fixação em fases antigas do desenvolvimento. Segundo a psicanálise, comportamentos sexuais atípicos podem ser entendidos como marcas do infantilismo no psiquismo, o que ajuda a despatologizar o olhar sobre o desejo, mostrando que ele tem história e sentido.
A relação com os pais, especialmente a dificuldade de separação da mãe e a ausência do pai na sua função que deveria por limites, pode moldar profundamente o desejo adulto. O caso de J. mostra que uma relação simbiótica com a mãe, somada à exclusão da função paterna, pode impedir a passagem para a sexualidade genital madura e saudável.
Freud estava certo?
Ao desenvolver a teoria do desenvolvimento psicossexual, ele nos ensinou que a sexualidade não nasce na puberdade, mas está presente desde a infância.
Mostrou que as experiências precoces deixam marcas duradouras no psiquismo e que o prazer sexual não se limita à função reprodutiva, pode estar presente em diferentes zonas do corpo e em diferentes fases da vida inclusive ficar fixados.
Freud corajosamente rompeu com o moralismo religioso de sua época ao afirmar que a sexualidade infantil existe e que o desejo humano é naturalmente diverso.
Graças a ele, hoje podemos falar abertamente sobre prazer, fantasia e desenvolvimento sexual sem vergonha ou culpa.
Sua teoria abriu caminho para entendermos que cada pessoa tem sua própria história sexual, e que isso é humano, legítimo e digno de escuta.
Lembre-se: Na clínica psicanalítica, o respeito pelo sofrimento e pela singularidade do paciente vem antes de qualquer diagnóstico ou rótulo moral.
Para refletir:
Se você ou alguém que conhece tem desejos sexuais fora do padrão, isso não significa automaticamente “doença” ou “perversão” no sentido pejorativo.
A pergunta que a psicanálise faz é:
Essa forma de amar e sentir prazer causa dor?
Impede conexões afetivas saudáveis?
Gera sofrimento?
Se sim, pode valer a pena investigar essa história.
Se não, talvez seja apenas mais uma forma de conhecer o que é ser humano.
Referência do estudo original:
SANTOS, J. C.; GAGLIOTTO, G. M. Sexualidade desviante: um caso de perversão feminina. UNIOESTE.
BERGERET, J. Personalidade Normal e Patológica. 2ª Ed.: Porto Alegre, 1991.
CHASSEGUET-SMIRGEL, J. Ética e Estética da Perversão. Porto alegre: Arte Médica, 1991.
DOLTO, F. Psicanálise e Pediatria. 4ª Ed.: Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1971.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Paulo Dias Corrêa. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
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