O Terapeuta e o Rosto que o Espelho não Vê
- Prof. Nilton de Oliveira

- 4 de jun.
- 2 min de leitura
Há uma solidão peculiar na sala de atendimento além da do paciente. É a do analista, que afinal estuda, supervisiona, analisa-se, e ainda assim, quando uma família cruza a porta e distribui seus corpos pelas cadeiras o pai na ponta, a mãe de braços cruzados, o filho olhando para o chão, ele se depara com um enigma que nenhum manual resolve sozinho.

Este livro nasceu dessa solidão. E nasceu também do espanto. O espanto ao descobrir que as ferramentas forjadas por S.Freud de um sujeito deitado num divã poderiam ser as mesmas, mas, radicalmente outras quando o setting se tornava circular.
O espanto, sobretudo, de encontrar em W. Bion um psicanalista que trabalhou com grupos de soldados e revolucionar a clínica para o que acontece entre as mentes. Ele ensinou que o vínculo é uma entidade viva, que pode ser nutrida ou intoxicada, conhecida ou atacada.
Ensinou que diante de um casal ou de uma família, é preciso funcionar como um continente, que recebe a angústia bruta do grupo, Ensinou que há grupos que não querem ser curados; querem apenas um salvador, ou um inimigo, ou um messias que virá no futuro e que cabe ao terapeuta trabalhar essas expectativas com delicadeza e firmeza, para que o pensamento possa enfim nascer.
Este livro é, portanto, uma tentativa de responder à solidão do terapeuta com companhia de Freud, de Bion, e de famílias que comparecem com nomes fictícios e dores reais e foi escrito para terapeutas que, como eu, já se sentiu perdido diante de um silêncio hostil ou de uma fala que não comunicava.
Para o estudante que desconfia que a psicanálise tenha algo a dizer sobre famílias, mas não sabe como começar. Para o supervisor que busca referências para discutir com seus supervisionandos. Para o leitor curioso que quer entender por que amamos como amamos, brigamos como brigamos, repetimos como repetimos.
A metáfora que dá título ao livro, o Divã Circular, é uma tese. O divã freudiano, móvel austero onde o paciente se deita e fala sem ver o rosto do analista, não foi abandonado, mas, expandido.
Ele se abriu para que outros corpos pudessem sentar-se ao redor, para que outras vozes pudessem ser escutadas, para que o inconsciente deixasse de ser uma propriedade privada e se revelasse como aquilo que sempre foi: um campo.
Se este livro ajudar um único terapeuta a sustentar o silêncio numa sessão difícil, a nomear um pacto denegativo que aprisionava uma família, a oferecer sua rêverie a um casal intoxicado de elementos beta então ele terá cumprido seu propósito.
Bom trabalho. As famílias esperam.
Prof. Nilton de Oliveira - Psicanalista Didata



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