O "Eu" não é o que você pensa: Uma introdução ao Seminário 2 de Lacan
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 28 de abr.
- 7 min de leitura
Por que a psicanálise não quer "fortalecer seu ego" (e o que ela quer, afinal?)
Se você já fez terapia ou ouviu falar de psicanálise, provavelmente já encontrou frases como "preciso fortalecer meu ego" ou "meu eu está muito frágil". Parece fazer sentido, não é? Afinal, quem não gostaria de ter um ego mais forte, mais seguro, mais adaptado à realidade?
Pois Jacques Lacan, um dos psicanalistas mais influentes e polêmicos do século XX, diz exatamente o contrário. Para ele, "O eu" (ego) não é o que você pensa que é. E mais: a psicanálise não deve, em hipótese alguma, se propor a "fortalecer" o EGO de ninguém.
É isso que Lacan, desenvolve no Seminário, livro 2, intitulado "O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise" (1954-1955). Vamos entender esse debate fascinante.
O problema: quem é esse "eu" que fala em mim?
Lacan parte de uma advertência simples, mas radical: a noção de "eu" que usamos na psicanálise não é uma tábula rasa. Ela vem carregada de séculos de filosofia (de Sócrates a Descartes) e de uma concepção pré-analítica que pertence ao senso comum.
O problema, para Lacan, é que essa concepção tradicional exerce uma "atração" e até uma "subdução" sobre a teoria freudiana. A psicanálise, depois de Freud, corre o risco de ser reabsorvida por um discurso familiar e não subversivo, exatamente o oposto do que Freud descobriu.
E o que Freud descobriu? Que o sujeito não se confunde com o eu consciente. Lacan cita o poeta Rimbaud: "Eu é um outro" (Je est un autre). O sujeito do inconsciente está em outro lugar, fora do campo das certezas do eu. Segundo Lacan: "O sujeito está descentrado com relação ao indivíduo.".
O estádio do espelho: como nasce o "eu":
Você já viu um bebê diante do espelho? Por volta dos 6 aos 18 meses, algo curioso acontece: ele se reconhece. Mas não é um reconhecimento simples. Lacan descreve esse momento como o estádio do espelho.
Antes do espelho, o bebê vive uma experiência de "despedaçamento" (corps morcelé), ele não tem coordenação, não se sente unificado. A imagem no espelho lhe oferece uma unidade, uma totalidade. Mas essa unidade é alienante, porque está fora dele. O sujeito se identifica com uma imagem que o fascina e o paralisa. Sendo assim, O eu (EGO), portanto, não é o centro; é uma função imaginária, um reflexo, uma imagem tomada de empréstimo.
Dois "outros" e um muro: o esquema L
Para organizar essas ideias, Lacan propõe um diagrama que ficou conhecido como Esquema L. Não se assuste com o nome; é mais simples do que parece.
S (sujeito) –––––––– a' (outro especular)
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A (grande Outro) –––––––– a (eu)
O que isso significa?
a (eu) é a imagem que você tem de si mesmo, formada na relação com o outro especular.
a (outro especular) é o semelhante, aquele que te olha, te julga, te rivaliza. É quando imaginamos: "o que vão pensar de mim?".
S (sujeito), é o sujeito do inconsciente, o que fala nos sonhos, nos lapsos, nos atos falhos.
A (grande Outro), é a ordem simbólica: a linguagem, a lei, o discurso que nos precede e nos constitui.
O problema é que o sujeito (S) e o grande Outro (A) estão separados por um muro, o muro da linguagem. O sujeito se endereça ao Outro, mas só alcança o outro especular (a'). Por isso, como diz Lacan, "o sujeito não sabe o que diz": ele fala para o Outro, mas sua fala é capturada pelo imaginário.
A análise, então, não visa fortalecer o eu (a). Visa permitir que o sujeito (S) advenha em relação ao grande Outro (A), que ele assuma sua verdade para além das imagens.
O sonho da injeção de Irma: quando o eu se dissolve
Lacan dedica vários capítulos do seminário à análise de um sonho famoso: o sonho da injeção de Irma, que Freud considerou o "sonho inaugural" da Interpretação dos Sonhos. O sonho é longo, mas vamos aos pontos principais. Nele, Freud:
Dialoga com sua paciente Irma, repreendendo-a (primeira etapa, nível do eu).
Vê a garganta de Irma, uma visão aterradora de carne informe (o real, o que causa angústia).
É rodeado por uma multidão de personagens (doutor M., Otto, Leopold), uma decomposição espectral do eu.
No meio dessa cacofonia, surge a fórmula da trimetilamina, escrita em negrito.
Para Lacan, a trimetilamina é o sujeito acéfalo, o sujeito sem eu, sem cabeça, puro significante. Quando o eu se dissolve, o que aparece? O inconsciente. O sonho ensina que o sujeito não está no eu; está no que fala para além do eu.
"O que está em jogo na função do sonho se acha para além do ego, aquilo que no sujeito é do sujeito e não é do sujeito, isto é, o inconsciente.". Lacan, Seminário 2.
A carta roubada: o significante que manda
Em outro momento brilhante do seminário, Lacan analisa o conto de Edgar Allan Poe, "A carta roubada". A história é simples: uma carta comprometedora é roubada da rainha pelo ministro. A polícia revira o apartamento do ministro, mas não encontra nada. O detetive Dupin, então, vai ao apartamento e encontra a carta à vista de todos, disfarçada em um porta-cartas. Sobre esse tema, tem um um artigo aqui no blog.
O que Lacan destaca?
Nunca sabemos o conteúdo da carta. O que importa não é o que ela diz, mas sua circulação, sua posição.
Cada personagem ocupa um lugar na estrutura: o rei (cego), a rainha (sabe, mas não pode falar), o ministro (astuto, mas depois cego), Dupin (vê a estrutura).
A carta é um significante puro, o inconsciente dos personagens.
Lacan então formula uma frase que se tornou célebre: "Uma carta sempre chega a seu destino." Isso não significa que a carta chega ao destinatário físico. Significa que o significante sempre produz seus efeitos, sempre determina a posição do sujeito que com ele se relaciona, mesmo que o conteúdo nunca seja lido.
Exemplo cotidiano: Um segredo de família (uma adoção não revelada) nunca é mencionado. No entanto, ele produz sintomas em todas as gerações, repetições, silêncios, um saber sem saber o que é que causa angústia. É igual ao segredo da carta roubada. Ninguém sabe o conteúdo, mas todos dançam conforme a posição que a carta impõe.
O analista como espelho vazio (não espelho vivo)
Se o eu é uma imagem alienante, e se o sujeito está no simbólico, qual deve ser a posição do analista?
Lacan é categórico: o analista não deve ser um espelho vivo, aquele que oferece seu próprio eu como modelo, como padrão de normalidade, como "eu forte" a ser imitado.
Isso, para Lacan, é um desastre clínico. O analista que se coloca como modelo induz uma "paranóia pós-analítica": o paciente adere ao imaginário do analista como se fosse real. "Que o sujeito acabe acreditando no eu, e, como tal, uma loucura."
O analista deve ser um espelho vazio, um lugar onde o sujeito possa encontrar não sua imagem, mas a possibilidade de advir como sujeito da fala. O analista não responde quando o paciente faz uma pergunta, ele não se coloca como modelo de felicidade. Ele sustenta o lugar do "Outro", o lugar de onde a verdade pode vir.
"A análise consiste em fazer o sujeito descobrir progressivamente a que Outro ele verdadeiramente se endereça, apesar de não sabê-lo." Lacan, Seminário 2
Desejo, morte e o "além do princípio do prazer"
Lacan também enfrenta um dos conceitos mais espinhosos de Freud: o instinto de morte (ou pulsão de morte). Muitos entendem isso como uma tendência biológica à autodestruição, o ser vivo querendo voltar ao inorgânico.
Lacan diz: não é nada disso!
O instinto de morte é o nome da ordem simbólica na medida em que ela se impõe para além do princípio do prazer. O princípio do prazer busca homeostase, ou seja, reduzir a tensão, voltar ao equilíbrio (a vida, diz Lacan, "só pensa em morrer"). O que puxa o sujeito para fora desse equilíbrio é a insistência do significante, o que não cessa de pedir para ser dito, mesmo que isso cause desprazer.
É por isso que repetimos padrões dolorosos. Não é masoquismo. É a insistência de um significante não simbolizado, de uma verdade que não foi dita.
"A vida só pensa em morrer. É preciso puxar o sujeito para fora daí para que ele alcance o ritmo da existência.", Lacan, Seminário 2
E no final, o que a análise quer?
Para Lacan, o fim da análise não é a integração do eu, o fortalecimento do ego, a adaptação à realidade. Isso é feito pela "psicologia do ego", um desvio que ele critica duramente (especialmente em autores como Heinz Hartmann).
O fim da análise é a assunção do sujeito em sua relação com o grande Outro. É o momento em que o sujeito pode dizer "eu", não como imagem, mas como sujeito da fala, assumindo sua verdade, sua falta, seu desejo.
Lacan cita Édipo em Colona, no fim da vida: "Será que é no momento em que não sou nada que me torno um homem?" Édipo realizou seu destino até o fim, apesar de sua mutilação, de seu exílio, de sua falta, e foi além disso. No momento em que não é mais nada, algo se realiza.
A psicanálise não é um humanismo. Não coloca o homem no centro do mundo. Mostra que o sujeito está descentrado, que sua verdade está no Outro, que sua realização não é a integração de um eu, mas a assunção de sua relação com o simbólico.
Resumo em uma frase:
Lacan mostra que o EGO é uma imagem alienante, não o centro do sujeito, e que a psicanálise não visa fortalecer essa imagem, mas permitir que o sujeito do inconsciente advir na fala.
Para quem quer saber mais:
O Seminário, livro 2, é uma leitura desafiadora, mas profundamente recompensadora.
Se você quiser ampliar essa leitura, recomendo também ler os textos do blog categoria Lacan, lá você encontra, "A carta roubada'" e o artigo "O estádio do espelho como formador da função do eu". Acesse!
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E você, o que achou? Já tinha pensado que o EGO pode não ser seu melhor amigo na análise? Deixe seu comentário abaixo!



Aprendendo mais a cada seminário. Esclarecedor!