Menopausa: A iniciação de Perséfone e o despertar da rainha interior
- Carla Moreira

- 5 de mai.
- 4 min de leitura
Na clínica psicanalítica, nos deparamos cada vez mais com mulheres na fase da menopausa que apresentam queixas relacionadas tanto a sentimentos antigos como angústia, tristeza e vazio, quanto a novas sensações, especialmente marcadas por instabilidade de humor. Muitas vezes, torna-se difícil, para elas, entender até onde esses sentimentos já faziam parte da sua história ou emergem como efeito das transformações próprias desse novo ciclo.
Trata-se de mulheres que atravessam uma transição significativa: a passagem da fase reprodutiva para a menopausa. Nesse percurso, o corpo se transforma, já não responde da mesma maneira, o humor oscila, a energia diminui, a libido pode se reduzir, a irritabilidade se intensifica e a motivação nem sempre se sustenta. Soma-se a isso a experiência, por vezes inquietante, de olhar-se no espelho e não se reconhecer nos traços que enxergam, o que pode trazer questionamentos sobre o que é esperado para a idade e o que pertence à própria história subjetiva.
A menopausa não pode ser entendida apenas como um evento biológico, ela se inscreve também como parte da história psíquica da mulher em análise. Nesse sentido, é fundamental que seja incluída no campo da escuta psicanalítica, permitindo o espaço para a elaboração dessas vivências e a construção de novos significados diante dessa etapa da vida.
O mito de Perséfone nos ajuda e refletir sobre essa travessia. Ele nos fala de perda, de transformação e, sobretudo, de um feminino que se refaz a partir da descida.
Perséfone, filha de Deméter, foi raptada por Hades e levada ao submundo. Sua mãe, deusa da fertilidade e das colheitas, entrou em desespero e na ausência da filha retirou sua potência do mundo, então a terra secou, as plantas não cresciam mais e a vida entrou em suspensão. Era o primeiro inverno.
Após negociações foi feito um acordo: Perséfone passaria parte do tempo no submundo e parte na superfície. Mas algo mudou de forma irreversível, ela não retornou mais como a jovem inocente de antes, que colhia flores. Ela voltou como rainha do submundo, marcada pela experiência da descida, conhecedora das sombras.
Sob o olhar da Psicanálise e de acordo com o pensamento de Carl Jung , esse mito pode ser compreendido como uma imagem arquetípica do processo de individuação, o movimento em que a mulher é convocada a confrontar o inconsciente, integrar conteúdos sombrios e emergir transformada.
A menopausa, nesse sentido, pode ser vista como uma travessia semelhante.
Há, no corpo, uma mudança concreta, o ciclo menstrual cessa, a fertilidade biológica se encerra. Os hormônios entram em declínio de estrogênio e progesterona, que pode trazer sintomas físicos como ondas de calor, alterações no sono, mudanças na pele e no metabolismo. Mas, para além do corpo, algo profundo também acontece na psique.
Assim como Deméter, muitas mulheres vivem essa fase como uma perda. Não apenas da fertilidade, mas de uma identidade construída e reconhecida em torno da juventude, da capacidade de gerar, do lugar simbólico que ocupavam. Pode surgir um sentimento de vazio, de desorientação, como se algo tivesse sido levado delas. É o inverno psíquico, um tempo de suspensão, de recolhimento e as vezes de tristeza ou estranhamento.
Mas o mito não termina na perda. Da mesma forma que Perséfone, a mulher na menopausa não retorna ao mesmo lugar de antes porque existe a possibilidade de transformação profunda. Atravessar essa fase pode ser a forma de se tornar mais próxima de si mesma, menos regida por demandas externas, mais conectada ao seu mundo interno. A libido, como energia psíquica, deixa de estar tão voltada para o exterior (reprodução, cuidado, expectativas sociais) e pode se voltar para dentro (maior autoconhecimento)
É nesse movimento que emerge a “rainha do submundo”. Não como algo sombrio ou negativo, mas como uma figura que conhece as profundezas da alma, que já atravessou perdas e que sustenta ambivalências. Uma mulher que não precisa mais ser apenas primavera, não precisa mais apenas colher flores, mas que incorpora também o inverno, o silêncio, a introspecção. E é dessa descida que surge uma nova forma de florescimento.
A menopausa, então, não precisa ser entendida apenas como um fim biológico, pode ser entendida também como uma iniciação psíquica.
Assim como Deméter aprendeu a conviver com os ciclos de ausência e retorno a mulher pode aprender a reconhecer que seu potencial não desapareceu, ele se transformou. Já não é possível gerar vida no corpo, mas pode ser possível gerar sentido, criação, presença e sabedoria.
Perséfone nos lembra que não há retorno verdadeiro sem descida. A mulher que atravessa a menopausa não volta a ser quem era, ela se torna outra.
Carla Moreira - Psicanalista Didata
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