Até quando a dor se sustenta?
- Crisney Barbosa

- 11 de mai.
- 2 min de leitura
Há dores das quais pouco se fala, ou que muitas vezes evitamos nomear. São dores que atravessam a sociedade, abalam nossas emoções e interrogam o próprio modo como temos cuidado da vida.
Há poucos dias, no Acre, duas funcionárias de escola foram assassinadas ao protegerem seus alunos. Segundo principais veículos que noticiaram o caso foram G1, VEJA, A Gazeta do Acre, entre outros, publicado início de Maio. O Fato ocorreu no Instituto São José, em Rio Branco, Raquel Sales Feitosa e Alzenir Pereira da Silva colocaram-se diante do perigo e impediram que um adolescente de 13 anos entrasse em uma sala de aula. Nenhuma criança morreu.
O que se apresentou naquele instante? Amor de educadora? Instinto de proteção? O gesto materno de quem sustenta a vida quando tudo ameaça ruir?
Neste Dia das Mães, duas famílias choram a ausência de suas mães. Faltará a presença, o cuidado, o abraço e aquilo que, muitas vezes, só se reconhece em sua ausência: a experiência de proteção.
A dor da sala de aula não nasce apenas no instante do acontecimento. Muitas vezes, ela se constrói em silêncio na solidão subjetiva, no sofrimento não escutado, nas violências emocionais que atravessam vínculos, famílias e instituições.
E não foi um caso isolado. A memória também nos conduz a Heley de Abreu Silva Batista, que, em Janaúba, entregou a própria vida para salvar crianças durante o incêndio na creche. Ali também vimos o cuidado se tornar ato. Incêndio na creche Gente Inocente
Pela leitura psicanalítica de Donald Winnicott, essas mulheres sustentaram aquilo que ele chamou de ambiente suficientemente bom: um espaço de proteção, continência e segurança, onde a criança pode existir sem ser tomada pelo terror.
Hoje, muitas mães abraçam seus filhos porque duas mulheres se colocaram entre a violência e a infância. Enquanto algumas casas celebram, duas outras permanecem em pranto.
Talvez aí esteja um grande recado para nossa sociedade: cuidar da saúde mental não é um detalhe. É uma urgência ética, humana e coletiva. Quando o sofrimento não encontra palavra, ele pode transbordar em ato. E quando o cuidado encontra coragem, ele pode salvar vidas.
Crisney Barbosa - Psicanalista Didata e Clínico
Associado da Academia Tríade da Psicanálise
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“Às vezes parece que essa dor também te sustenta de alguma forma, como se fizesse parte de quem você é hoje.” Muito pertinente, gostei das comparações e da reflexão.
Muito bom!!