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A Clínica Psicanalítica:

  • Foto do escritor: Crisney Barbosa
    Crisney Barbosa
  • 4 de jun.
  • 4 min de leitura

Um Espaço Suficientemente Bom


Tomo no início a ideia de Donald Winnicott ao se referir ao espaço materno: um ambiente seguro, acolhedor e suficientemente bom, no qual o psicanalista precisa observar o paciente com sensibilidade e cuidado e que o setting seja esse espaço para o paciente.

Sándor Ferenczi acreditava que a escuta verdadeira não acontece apenas por meio das palavras, mas também no acolhimento da dor, do silêncio e das marcas emocionais que cada sujeito carrega. Era considerado o psicanalista que olhava para o paciente de maneira humana e profunda, escutando a fala, os desejos, a transferência e a contratransferência.

Ser psicanalista, seja no atendimento on-line ou presencial, exige compreender e não se compreendido, que em suas mãos, estarão as dores, os amores, os desejos, as angústias e as ansiedades de seus pacientes. O espaço analítico torna-se um lugar de fala tanto do paciente quanto do psicanalista: um ambiente seguro, onde aquilo que foi ferido pode encontrar acolhimento e elaboração, como um regaço acolhedor de uma mãe ou de um pai.

O que esperar da clínica psicanalítica do século XXI? A mesma clínica de Sigmund Freud? Ou uma clínica contemporânea? Talvez uma clínica que preserve a escuta, mas que também reconheça a presença do eu acolhedor, do imaginário e do real, dos fatos analisados, das angústias e das ansiedades, da transferência e contratransferência. Uma clínica do saber e, sobretudo, do encontro com o outro.

A clínica psicanalítica continua sendo um espaço de elaboração das fantasias, das emoções e da construção do comportamento humano, um lugar onde o sujeito pode aos poucos encontrar sentidos para sua própria existência e reelaborar suas dores, sentimentos e conflitos.

Seja a clínica freudiana, kleiniana, winnicottiana ou lacaniana, pouco importa a vertente adotada se o analista não estiver verdadeiramente disponível para escutar as demandas e necessidades do analisando. Os referenciais teóricos são fundamentais e oferecem sustentação à prática clínica, mas é preciso que a clínica seja também a expressão do ser do psicanalista: uma presença que acolhe, um olhar atento, uma escuta sensível e comprometida.

Percorrer os caminhos teóricos e seus fundamentos é indispensável, mas trazê-los para a realidade contemporânea, sem perder de vista os princípios que sustentam a prática analítica, é igualmente essencial. Entre esses princípios, destaca-se a transferência, elemento central do processo terapêutico.

Quando Carl Gustav Jung encontrou Sigmund Freud pela primeira vez, foi questionado por ele: “E o que você acha da transferência?”. Jung respondeu: “A transferência é tudo” (MURRAY, 2023, p. 50).

Na relação entre analista e analisando, a transferência constitui o receptáculo que abriga o processo terapêutico e torna possíveis a mudança e o desenvolvimento psíquico. Como afirma Murray (2023, p. 42), é nesse vínculo que se estabelece o espaço necessário para que o sujeito possa elaborar seus conflitos, ampliar sua compreensão de si mesmo e construir novos caminhos para sua existência.

Hoje, realizo atendimentos tanto na modalidade online quanto presencial. Em ambos os contextos, procuro construir um ambiente acolhedor, confortável e propício ao trabalho analítico, tanto para o paciente quanto para mim.

Quando o paciente percebe que está diante de um profissional comprometido com sua escuta, atento aos seus processos psíquicos e capaz de sustentar um espaço de acolhimento e reflexão, estabelece-se uma relação de confiança fundamental para a continuidade do tratamento.

A atenção flutuante, na qual “consiste simplesmente em não dirigir a atenção para nada em particular e em manter a mesma ‘atenção uniformemente suspensa diante de tudo o que se escuta.” conceito central da clínica psicanalítica, permite ao analista captar não apenas o conteúdo manifesto do discurso, mas também seus aspectos latentes, percebendo nuances, contextos, movimentos subjetivos, conflitos e possibilidades de elaboração. Respeitar a autonomia do paciente e favorecer sua livre expressão são elementos essenciais para o desenvolvimento do processo analítico.

Ao longo da minha trajetória clínica, tenho pacientes que permanecem em análise desde o período da minha formação, há mais de dois anos. Também recebo adolescente encaminhado por indicação, na qual passou anteriormente por outros profissionais, mas não conseguiram estabelecer vínculo terapêutico suficiente para permanecer além de poucas sessões.

Isso evidencia que a percepção clínica do analista, a qualidade da escuta, o manejo da transferência e a construção de um ambiente analítico seguro são fatores fundamentais para a permanência e o desenvolvimento do trabalho psicanalítico. Mais do que um espaço físico, a clínica é um lugar de encontro, escuta e transformação.


Crisney Barbosa

Psicanalista Didata, Clínico e neuropsicanalista


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Referências:

FERENCZI, Sándor. Obras Completas: Psicanálise. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. 4 v.

FERENCZI, Sándor. Obras Completas: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

(FREUD, Sigmund. Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise, 1912. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XII, p. 125.)

KLEIN, Melanie. *Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963*. Rio de Janeiro: Imago, 1991. (Obras Completas de Melanie Klein, v. 3).

KLEIN, Melanie. Narrativa da análise de uma criança. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

STEIN, Murray. Os quatros pilares da psicanálise junguiana: Individuação, relacionamento analítico: sonhos: imaginação ativa: uma introdução concisa/ Murray Stein; tradução Hugo Iglesias Torres de Moraes. 1ª ed. São Paulo, SP, Editora Cultrix, 2023

 
 
 

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