O Elefante na Sala de Análise: Por que a Psicanálise não é uma Conversa a Dois
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 16 de mar.
- 6 min de leitura
Uma reflexão sobre o ponto cego da técnica contemporânea - Seminário 01

Há uma cena, no final do Seminário 1 de Jacques Lacan, que poderia passar despercebida como uma simples excentricidade francesa: após um ano inteiro de trabalho sobre os Escritos Técnicos de Freud, Lacan manda distribuir figurinhas de elefantes aos seus alunos.
O gesto é tão inesperado quanto profundamente significativo. Mas para compreendê-lo, precisamos recuar e examinar o problema central que motivou todo aquele ano de ensino.
O Problema: Quando os Analistas Não se Entendem
Lacan abre seu seminário de 1953-1954 com uma constatação alarmante: há uma "confusão mais radical" entre os analistas contemporâneos sobre a natureza e os objetivos da prática psicanalítica.
As concepções são tão contraditórias que, se comparadas, chegam a formulações rigorosamente opostas. A linguagem freudiana, outrora viva, tornou-se um mero verniz, um conjunto de palavras que permite que colegas "pareçam" estar falando sobre a mesma coisa, quando na prática pensam de forma completamente diferente.
O que teria causado essa confusão?
Lacan identifica uma tendência das "doutrinas modernas" em focar quase exclusivamente na relação inter-humana entre analista e analisando. Essa abordagem, que ele chama de psicologia de dois corpos, busca compreender a análise como um campo de forças entre dois indivíduos, suas emoções, suas transferências e contratransferências, suas relações de objeto.
À primeira vista, isso parece razoável. Afinal, não é disso que se trata? Duas pessoas numa sala, uma falando, outra ouvindo? O setting analítico não é, concretamente, um encontro entre dois corpos?
A Armadilha da Relação Dual
O problema, para Lacan, é que essa abordagem reduz a complexidade da experiência analítica a uma relação imaginária, ou seja, uma relação de espelho, de identificação, de captura especular. É a relação que observamos no comportamento animal: o esgana-gata, o macho que dança diante da fêmea, os adversários que regulam seus movimentos numa luta que nunca chega às vias de fato, ou a criança que se reconhece jubilosamente no espelho.
No homem, essa dimensão imaginária é real e importante. O eu (Ego) se constitui exatamente assim: por identificação com a imagem do outro, por antecipação de uma totalidade corporal que ainda não se possui. É o que Lacan chama de "estádio do espelho". O problema não é reconhecer essa dimensão, é tomá-la como toda a realidade da análise.
Quando a análise é concebida apenas como uma relação a dois, o analista e o analisando ficam presos num jogo de espelhos infinito. O analista projeta, o analisando introjeta; um identifica-se com o outro; a contratransferência responde à transferência num circuito fechado. Balint, um dos expoentes dessa tendência, chega a formular a situação analítica exatamente nesses termos: Psicologia de dois corpos.
Mas se é assim, pergunta Lacan, como escapar desse circuito?
Como evitar que a análise se torne uma ortopedia do ego, onde o analista, consciente ou inconscientemente, modela o analisando à sua própria imagem? Como distinguir esse processo de uma simples sugestão, ou mesmo de uma doutrinação disfarçada?
O Terceiro Elemento: A Estrutura que nos Antecede
A tese fundamental de Lacan, anunciada já na introdução de seu seminário, é que a experiência analítica não se reduz a uma relação dual. Para ser compreendida em sua completude, ela deve ser formulada como uma relação triádica. Há sempre um terceiro elemento em jogo, e esse terceiro é a linguagem, a estrutura simbólica que antecede e transcende os dois indivíduos presentes na sala.
Esse terceiro elemento não é uma pessoa. Não é o "pai real" nem qualquer figura concreta. É a ordem simbólica enquanto tal: o sistema da linguagem, as leis da parentela, os mitos fundamentais de uma cultura, o complexo de Édipo como estrutura, não como história pessoal.
Quando o analisando fala, não é apenas Ele que fala. É a linguagem que fala através dele. Seus lapsos, seus sonhos, seus sintomas, tudo isso são manifestações de um discurso que não é simplesmente "seu", mas que o atravessa. O inconsciente, diz Lacan, é "o discurso do outro". Não do outro como pessoa (o analista), mas do outro como lugar, como estrutura, como tesouro dos significantes.
O Elefante na Sala
É aqui que a figurinha do elefante ganha todo o seu sentido. Durante todo o seminário, Lacan usou o exemplo do elefante para ilustrar a natureza do símbolo. A palavra "elefante", diz ele, é mais real, mais decisiva para o destino dos elefantes do que qualquer evento natural. É pela palavra que os homens deliberam sobre a espécie, que decidem protegê-la ou exterminá-la, que a fazem entrar em seus poemas, em seus sonhos, em suas leis.
A figurinha que Lacan distribui no último encontro não é um simples brinquedo. É a materialização do terceiro elemento. É o símbolo tornado coisa, o significante tornado presente, o elefante que agora pode ser trocado, colecionado, lembrado.
Ao dar a figurinha a seus alunos, Lacan não está apenas fazendo um gesto afetivo. Está dizendo: "Eis o que tentamos pensar juntos este ano. Eis o que está sempre presente, mesmo quando parece ausente. Eis o terceiro termo sem o qual a relação a dois se perde no labirinto dos espelhos."
As Consequências para a Prática
Compreender que a análise é uma relação triádica, que envolve não apenas dois sujeitos, mas também a ordem simbólica que os constitui, tem consequências práticas fundamentais.
A primeira é que o analista não deve ocupar o lugar de "mestre" que ensina, mas de "testemunha" que escuta. Não se trata de modelar o analisando segundo um ideal de saúde ou normalidade, mas de permitir que ele reinscreva sua história na ordem simbólica, que nomeie seus desejos ali onde eles foram recalcados, que assuma o que, até então, falava através dele sem que ele soubesse.
A segunda é que a interpretação não visa "desmascarar" defesas ou "revelar" conteúdos ocultos. A interpretação é um ato de nomear, dar nome ao desejo no momento exato de sua emergência, ali onde o imaginário e o simbólico se encontram. Não se trata de dizer ao analisando o que ele realmente quer, mas de dar-lhe as palavras para que ele possa, ele mesmo, reconhecer-se.
A terceira é que a transferência não é apenas uma repetição de relações passadas, mas a própria condição da palavra na análise. É na transferência que o analisando endereça seu discurso a alguém que pode, justamente por não ser o outro imaginário, acolher a palavra em sua dimensão simbólica. O analista não é o mestre, nem o amante, nem o pai, é o lugar vazio onde a palavra pode, finalmente, ser ouvida.
Para Além dos Dois Corpos
A confusão que Lacan diagnostica na psicanálise de seu tempo e que, em muitos aspectos, persiste até hoje, deriva de se tentar compreender o fenômeno analítico apenas pela via imaginária da relação a dois.
Quando a análise é reduzida a um encontro entre dois egos, perde-se justamente o que há de mais específico nela: o fato de que se desenrola na dimensão da palavra, e que a palavra sempre nos remete a uma ordem que nos ultrapassa.
As figurinhas de elefantes que Lacan distribui no final do seminário 1, são um lembrete disso. O elefante real não está na sala. Mas sua palavra está. Seu símbolo está. E é por isso que podemos falar sobre ele, deliberar sobre ele, amá-lo ou temê-lo, mesmo que ele esteja a milhares de quilômetros de distância.
O mesmo vale para o analisando e o analista. Eles estão ali, dois corpos, duas presenças. Mas o que se passa entre eles não é redutível a essa presença. Há um terceiro presente, invisível, mas atuante, que é a própria estrutura da linguagem. É por isso que a análise pode transformar alguém sem que nada aconteça no plano dos fatos.
É por isso que uma palavra dita no momento certo pode ter o peso de um destino. É por isso que, no fim, o que fica não é a lembrança da pessoa do analista, mas a possibilidade, enfim conquistada, de dizer "Eu Sou" com todas as letras.
Lacan não poderia ter escolhido um símbolo melhor para encerrar seu seminário. O elefante, enorme, visível, inegável, é aquilo que está na sala e que ninguém vê. Até que alguém o nomeie.
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