A Pergunta de Lacan sobre o que Fazemos em Análise?
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 27 de mar.
- 7 min de leitura
Em 1953, Jacques Lacan iniciou seu primeiro seminário público, um exercício pedagógico que se estenderia por quase três décadas, colocando uma questão tão enganosamente simples que ameaçava desfazer os próprios fundamentos da prática psicanalítica. Dirigindo-se a uma plateia de clínicos e intelectuais, ele perguntou:
O que fazemos, quando fazemos análise?”
À primeira vista, a questão parece retórica. Para os analistas presentes, imersos na tradição da psicologia do ego e nas prescrições técnicas de Anna Freud, a resposta parecia evidente. Faz-se análise para fortalecer o ego, para tornar o inconsciente consciente, para adaptar o paciente à realidade. No entanto, a formulação de Lacan, “O que fazemos"?
Era uma provocação. Ele não perguntava qual era o objetivo da análise, mas seu estatuto ontológico. Ele perguntava sobre o "ato" em si. Este texto explora como a questão inaugural de Lacan no Seminário I serve como pedra angular para uma redefinição radical da prática psicanalítica, deslocando o foco da adaptação para a dialética do desejo e posicionando o analista não como um mestre do sentido, mas como o agente de uma forma específica de falta.
O Ato Analítico: Para Além da Adaptação
Para compreender o peso da questão de Lacan, é preciso situá-la no contexto da psicanálise do pós-guerra. A tendência dominante, particularmente na Associação Psicanalítica Internacional, era ver a análise como uma experiência emocional corretiva.
O analista se tornou uma figura benevolente que ajudava o ego do paciente a retomar o domínio sobre o id e o superego. Lacan questionava nesse contexto, a própria A. Freud, Erick Jones, Erickson e Hartman que tornaram o objetivo do tratamento, a famosa “capacidade de amar e trabalhar”.
Para Lacan, o final da análise não é a conquista de uma capacidade utilitária (amar e trabalhar bem), mas algo mais radical: O reconhecimento da própria divisão do sujeito e a travessia da fantasia que o sustenta.
Lacan via nisso uma traição à descoberta mais radical de Freud. Para ele, se a psicanálise se reduz a uma técnica de adaptação, ela deixa de ser uma prática do sujeito e se torna uma ferramenta de conformidade social. Sua pergunta, “O que fazemos?”, força o analista a confrontar uma verdade mais desconfortável: Que a análise não se trata de "fazer" no sentido de agir sobre o paciente, mas de "desfazer", "desconstruí-lo".
No Seminário I, Lacan retoma obsessivamente os textos técnicos de Freud, particularmente “Recordar, Repetir e Elaborar”. Ele observa que o ato analítico é definido por uma recusa em responder à demanda do paciente.
O paciente chega à análise com uma demanda, de forma geral entendemos por queixa, geralmente por alívio, por felicidade, por amor. O primeiro ato do analista é recusar-se a satisfazer essa demanda diretamente. Em vez disso, o analista oferece algo muito mais paradoxal: o silêncio, a pontuação, o corte e o quadro vazio da sessão.
Essa recusa é o motor da cura. Ao recusar a gratificação da demanda, o analista força o surgimento do desejo. Lacan argumenta que o que "fazemos" em análise é orquestrar um confronto entre o sujeito e a estrutura de seu desejo, um desejo que é sempre o desejo do Outro.
A Dimensão Simbólica e o Ato da Fala
Central para a resposta de Lacan no Seminário I é a função da fala. Ele afirma famosamente que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Consequentemente, o que fazemos em análise não é sondar as profundezas de um id biológico, mas decifrar um texto.
Lacan distingue entre "fala vazia" e "fala plena". Nos estágios iniciais da análise, o paciente se engaja na fala vazia, monólogos sobre o ego, queixas sobre a realidade e narrativas projetadas para seduzir ou confundir o analista. O trabalho do analista é cortar esse discurso imaginário.
Ao pontuar as sessões, fazer interpretações (quem fez o curso o ponto de corte, sabe como é) , ou mesmo permanecer em silêncio, o analista força o sujeito a se mover em direção à fala plena.
A fala plena não é meramente confessional; é um ato. É o momento em que o sujeito assume sua história, não como uma crônica de fatos, mas como uma estrutura de significantes. No Seminário I, Lacan insiste que o ato analítico é o ato de permitir que o sujeito reconstrua sua história através da fala, reconhecendo assim seu desejo nos significantes que ele rejeitou.
Assim, quando perguntamos “O que fazemos?” a resposta, para Lacan, é: "Fornecemos um espaço onde o sujeito pode se constituir como um ser falante". Não estamos reparando um ego; estamos facilitando o advento de um sujeito.
O Analista como Sujeito-Suposto-Saber e a Dialética da Transferência
A exploração de Lacan sobre o ato analítico é inseparável de sua teoria da transferência. No Seminário I, ele revisita o famoso caso do “Homem dos Ratos”, para ilustrar como o analista opera.
O analista entra em cena como o que Lacan mais tarde formalizaria como o "sujeito-suposto-saber". Este é o motor da transferência: o paciente supõe que o analista possui a chave secreta para o seu sofrimento. Mas o que o analista faz com essa suposição? Se o analista corresponde a ela e age como se de fato possuísse o saber, ele se torna um mestre, e a análise cai na sugestão, contra a qual Freud já havia alertado.
A resposta de Lacan é que o analista deve usar essa suposição de saber para desconstruí-la. As intervenções do analista visam privar o paciente da certeza de que o Outro detém a verdade. O analista permanece enigmático, não por crueldade, mas para forçar o paciente a produzir sua própria verdade.
Nesse sentido, o ato analítico é dialético. Envolve uma série de manobras em que o analista recusa ser o outro imaginário (o duplo, o rival) e, em vez disso, ocupa a posição do Outro simbólico, o depositário dos significantes. O objetivo é levar o paciente ao ponto em que ele perceba que a verdade que buscava no analista sempre esteve dentro de seu próprio inconsciente.
A Lógica “Invertida” da Cura
Talvez a implicação mais provocativa da questão de Lacan surja quando consideramos o final da análise. Qual é o resultado desse "fazer"?
Para Lacan, uma análise bem-sucedida não resulta em um ego “feliz” ou “ajustado”. Em vez disso, resulta em uma "travessia da fantasia". O sujeito chega a reconhecer que o objeto de seu desejo, o elusivo "objeto a", nunca foi algo que o analista pudesse lhe dar.
No Seminário I, Lacan lança as bases para essa ideia ao discutir o conceito de agressividade e a função imaginária. O ego, argumenta ele, é uma estrutura de reconhecimento equivocado.
Fortalecer o ego (como almejavam os psicólogos do ego) é fortalecer a própria estrutura que resiste ao inconsciente. O que fazemos em análise, portanto, é o oposto: estamos enfraquecendo o domínio do ego, desmantelando as certezas imaginárias que aprisionam o sujeito.
É por isso que o ato analítico é tão difícil. Requer que o analista sustente uma posição de não-ação, uma recusa em fazer o que o paciente demanda, uma recusa em ser o garantidor do sentido. É um ato de subtração.
A Dimensão Ética do Ato
Retornando à questão inicial de Lacan: “O que fazemos, quando fazemos análise?, descobrimos que se trata, em última instância, de uma questão ética. Ela pede ao analista que justifique sua presença, suas intervenções e seu silêncio.
A resposta de Lacan, tal como desenvolvida ao longo do Seminário I, é que a análise é uma prática de fala que visa a verdade do desejo. É uma prática que recusa as armadilhas imaginárias do poder, da sedução e da adaptação. O que o analista "faz" é manter aberto um vazio, o vazio do inconsciente, tempo suficiente para que o sujeito se arrisque a entrar nele.
Numa época em que a psicanálise é frequentemente pressionada a provar sua eficácia por meio de métricas e protocolos, a questão de Lacan continua sendo um lembrete necessário. O ato analítico não pode ser quantificado; é um acontecimento na ordem simbólica. Não é um fazer no sentido de produzir um resultado mensurável, mas um "deixar ser", um deixar que o sujeito se constitua em sua própria verdade.
Como Lacan afirmou famosamente mais tarde em sua carreira, o analista é aquele que “não recusa a ser um semblante”. Mas no Seminário I, vemos o nascimento dessa proposição radical: o analista não é um curador, não é um professor, não é um amigo.
O analista é o guardião da questão. E a primeira questão que ele deve sustentar é aquela que Lacan colocou à sua plateia naquele ano: "O que fazemos? Responder honestamente a essa pergunta é já estar na posição do analista, questionando o próprio ato e, nesse questionamento, abrindo o espaço para que o outro fale.
Quer se aprofundar na obra de Lacan?
Ao longo deste texto, percorremos apenas os primeiros passos de uma questão que Lacan nunca deixou de interrogar: "O que fazemos, quando fazemos análise? Do Seminário I aos últimos ensinamentos, a resposta se desdobrou em conceitos fundamentais sobre o objeto a, a transferência, o ato analítico, o sinthoma, que transformaram radicalmente a prática psicanalítica.
Compreender Lacan não é entrar em uma tradição que coloca a fala, o desejo e a ética do sujeito no centro da experiência clínica. Se você sentiu interesse pelo tema e deseja avançar nesse percurso, seja para sua formação clínica ou para um mergulho teórico consistente, convido você a conhecer o curso:
Você está convidado(a) a conhecer o nosso curso sobre A Clínica de Jacques Lacan!
Desenvolvido para quem deseja ir além das introduções e mergulhar com profundidade nos conceitos fundamentais do autor.
Clique no link abaixo e saiba mais sobre o curso:
Referências:
- LACAN, Jacques. *O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1954)*. Tradução de Betty Milan. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
- FREUD, Sigmund. “Recordar, repetir e elaborar” (1914). In: *Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud*, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.



Comentários