Como Sustentar a Clínica entre a Verdade e o Desejo?
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 27 de fev.
- 5 min de leitura
Inicio parabenizando a Psicanalista @Nelita Facion pelo tema apresentado dia 26/02/26.
sobre A frase de Lacan "Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar"
A frase de Lacan nos ensina que a verdade não é um destino que se alcança e acabou, ele nos ensina que é apenas uma fronteira.
A cada passo na análise ou de autoconhecimento, movemos um pouco essa fronteira, ampliamos nossa "capacidade de suportar". O que hoje é insuportável, amanhã, com a devida elaboração, pode ser integrado.
Desde Freud, estudamos que o sujeito não é dono da verdade, ele é, no máximo, um desbravador de suas próprias verdades, sempre na medida de sua coragem e de sua estrutura. Desbravador aqui é analogia ao nosso Grupo de Estudos.
Desbravadores são aqueles que buscam um tesouro, mas o mais importante é que eles têm coragem de cavar no escuro, assim como a análise, mesmo sem saber o que vão encontrar.
Todos nós carregamos verdades, aquelas bem difíceis de suportar, a análise faz com que encontremos forças para olhar para elas e suportá-las.
E na clínica? Se esse processo chega em uma encruzilhada e o paciente virar as costas para a verdade?
A clínica lacaniana entenderá que faz parte de uma travessia. É o momento em que as resistências se apresentam em sua forma mais pura. O paciente não está "errando" ou "boicotando" por que quer, é parte do tratamento; ele está, na verdade, mostrando ao analista a estrutura exata de seu sofrimento e talvez de seu gozo.
O que significa "virar as costas"?
Significa que o sujeito encontrou um limite e talvez a partir desse ponto não possa mais suportar.
Certa vez, uma paciente relata em uma das sessões a seguinte frase: "Estuo na beira de um precipício, e agora?"
O relato mesmo de forma análoga, mostra onde se apresenta a verdade, ta ali, na beira do precipício, (aquela que ela alcançou) e ao se deparar com isso provoca, aquilo que mais tentamos evitar: A Angústia ao ponto de parar, evitar e de recuar. Porque é melhor se esconder na segurança do sintoma, por mais doloroso que seja, ao desamparo do desejo. Afinal, como Lacan já dizia, o sintoma é um "abrigo" contra a angústia.
A Bússola do Analista: Como Proceder?
Diante dessa virada de costas, o analista não deve pensar que errou e nem tentar "puxar" o paciente de volta. A ética da psicanálise não é a da persuasão, mas a da sustentação. Alguns pontos importantes para quem está iniciando:
1. A Interpretação: O primeiro movimento do analista é interno, ou seja é renunciar à fantasia de que pode salvar, ajudar, curar o paciente ou de que deve conduzi-lo à verdade a qualquer custo. Se o analista insiste, ele se coloca na posição de "aquele que sabe o que é melhor para o paciente". Isso é sugestão, orientação, mas não é análise.
O analista não é um farol que ilumina o caminho correto; ele é, no máximo, uma lanterna que acompanha o paciente, mesmo que este decida entrar em um beco escuro e sem saída.
2. Sustentar a Posição de "Causa" do Desejo: Lacan diz que o analista deve ocupar o lugar de "causa do desejo" do analisante. O que isso significa na prática? Significa que o analista deve ser aquele que, com sua presença e sua escuta, faz com que o paciente deseje saber sobre si mesmo, mesmo que esse saber seja doloroso. Quando o paciente vira as costas, o analista não vira junto. Ele se mantém na posição.
3. O Manejo da Transferência: O Paciente não quer saber, mas quer falar. A transferência é outra ferramenta importante. O paciente pode virar as costas para a verdade, mas ele continua indo às sessões. Ele continua falando. O analista deve escutar o que o paciente coloca no lugar daquela verdade. Quando ele foge de uma verdade, ele automaticamente se agarra a outra coisa (um projeto que não concluiu, reclama de uma pessoa, apresenta novas queixas, manifesta um sintoma corporal).
O analista acolhe essa "fuga". Ele não confronta. Ele pergunta sobre o novo refúgio. Ou seja, ao acolher a resistência, ela começa a perder sua força de rigidez.
4. O Tempo Lógico e a Construção do Caso. Para Lacan a análise não é linear. Ela tem tempos lógicos: ver, compreender e concluir. O paciente viu algo (vislumbre da verdade), compreendeu algo (ainda que minimamente) e agora concluiu: "Pare! Não quero ir além." O analista respeita essa conclusão, pelo menos por enquanto. A aposta é que, ao sustentar a escuta e não julgar a "fuga", o paciente possa, em um outro momento, se dar conta de que aquela "conclusão" também faz parte do problema. É o que chamamos de "atravessamento".
5. A Interpretação Silenciosa: O Ato do Analista Às vezes, o ato do analista não é uma fala, mas uma posição. Se o paciente foge para o silêncio, o analista sustenta o silêncio. Se o paciente foge para a tagarelice, o analista não o interrompe, mas seu silêncio atento já funciona como um corte. Há um momento em que o analista pode fazer uma "pontuação".
Ele pode, no final de uma sessão onde o paciente só falou de "futilidades" após um momento de grande profundidade, fazer as devidas intervenções apontando o fato da fuga. Isso é suficiente para, muitas vezes, fazer o paciente se confrontar com sua própria manobra defensiva.
O analista é aquele que escuta no escuro, que confia que o paciente, mesmo tropeçando e recuando, está, a seu modo, tentando encontrar o próprio caminho. Veja só o que a apresentação da psicanalista Nelita Facion suscitou em nós.
Ao longo dessa jornada, desbravamos territórios densos: a verdade que só pode ser alcançada na medida do que se suporta, a posição ética do analista que não se confunde com técnica ou "ajuda" benevolente, a solidão estrutural de quem sustenta o ato analítico, e o encontro, sempre é tenso e fecundo.
Mas a teoria, por si só, não sustenta a clínica. Ela é um mapa apenas, mas não é território. O território é vivo, precisa ser desbravado, é feito de encontros, de tropeços, de casos que nos incomodam, de colegas que nos apontam o que não vemos, de estudo compartilhado que impede que o saber vire dogma ou solidão.
Se você é profissional e já atua na clínica, sabe que o setting pode ser um lugar solitário. Mas não precisa ser. Vem fazer parte do nosso grupo de estudos. É aqui que a teoria está ativa, os casos ganham contornos, que a solidão do analista encontra outras solidões que se tocam e se sustentam mutuamente. Para fazer parte das reuniões de 5ª feiras, acesse:
E se você ainda está pensando em iniciar nessa jornada, sentindo que há algo aí que te chama, mas não sabe por onde começar: conheça nosso curso de formação em psicanálise clínica. É o lugar para construir as bases, para se autorizar aos poucos, para descobrir, no seu tempo, a verdade que você é capaz de suportar e, quem sabe, um dia, sustentar para outros.
Para iniciar a jornada como psicanalista, acesse:
A Psicanálise é uma travessia e esse percurso pode ser compartilhado. E a porta da Academia Tríade da Psicanálise está aberta.
Prof. Paulo C. Galetto - Diretor do DEP (Departamento de Ensino e Pesquisa)




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