Para Além do Biológico: O Corpo e a Sexualidade pelo viés da Psicanálise
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 2 de mar.
- 6 min de leitura
O Texto é um resumo comentado da obra de Luciano Elia, intitulado: "O Corpo e a Sexualidade na Psicanálise de Freud e Lacan"
Por Paulo César Galetto - Psicanalista Didata
Diretor da Academia Tríade da Psicanálise
Segundo Elia, no senso comum e em muitas abordagens psicológicas e da área da saúde, o corpo é visto como uma máquina biológica, uma estrutura dada, que interage com a mente. A sexualidade, por sua vez, é frequentemente reduzida a uma função instintiva, cujo objetivo final seria a reprodução e a complementaridade entre os sexos.
Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
Será que o corpo que sofre, que sente prazer e que adoece é o mesmo corpo descrito nos manuais de anatomia? E a sexualidade, seria ela apenas um impulso natural que precisa ser domesticado?
Em seu livro "Corpo e sexualidade em Freud e Lacan", o psicanalista Luciano Elia nos convida a uma viagem radical para fora desse território familiar. Ele nos mostra que a psicanálise, desde Freud, opera uma verdadeira subversão: o corpo e a sexualidade de que ela trata não são os mesmos da psicologia ou da biologia.
A Ruína do Indivíduo Psicofísico
A psicologia tradicional, herdeira do positivismo, concebe o ser humano como um indivíduo psicofísico: Ou seja, uma unidade harmoniosa onde o corpo (organismo) e a mente (funções superiores) coexistem de forma integrada. O corpo é o suporte, e a sexualidade é apenas uma função entre outras, como a nutrição ou a cognição.
O problema, como Elia demonstra, é que a psicanálise desmembra essa unidade. O golpe vem de dois conceitos fundamentais: o inconsciente e a pulsão.
Parafraseando Freud, o inconsciente divide o indivíduo, revelando que ele não é senhor nem de sua própria casa. A pulsão, por sua vez, é o conceito limite que rompe definitivamente com a ideia de um ser uno e integrado.
Pulsão × Instinto: Uma Diferença importante para quem estuda a psicanálise
A grande virada freudiana está em distinguir a pulsão (Trieb) do instinto. Enquanto o instinto é um padrão fixo, hereditário e com um objeto pré-determinado, como por exemplo, (a fome busca o alimento), a pulsão não traz consigo o objeto fixado ou um destino específico.
Ela é uma "exigência de trabalho" feita ao psiquismo em sua ligação com o corpo. Seu objeto é o mais variável, escolhido apenas por sua capacidade de proporcionar satisfação e de preferência imediata.
Isso tem uma consequência clínica e teórica imensa: a sexualidade humana não é instintiva. Não há um objeto "natural" ou "adequado" para o desejo. A famosa "escolha de objeto" é sempre um enigma a ser decifrado na história singular de cada sujeito.
A Sexualidade é Infantil... e Isso Não Tem Nada a Ver com Idade ou com o ato
O título deste parágrafo, é para destacar que a sexualidade é um campo psíquico estruturado pela linguagem e pelo desejo e não pelo ato em si.
Quando Freud fala em "sexualidade infantil", ele não está dizendo que as crianças têm uma versão imatura da sexualidade dos adultos. O que ele quis mostrar é como se desenvolve a sexualidade desde criança até chegar na fase adulta. A tese de Elia é mais ousada: Ele descreve: só existe a sexualidade infantil. O infantil, aqui, é um substantivo, não um adjetivo.
Isso significa que a sexualidade do ser falante é, por estrutura, marcada pela "falta", pelo "parcial" e pelo "recorte". Ela não visa a completude ou a reprodução. A prova disso é o que Freud descobre sobre o inconsciente: ele não registra os dois sexos (pênis e vagina) como um par complementar. O que se inscreve é o "falo", não como órgão, mas como significante da falta e da diferença sexual.
É por isso que Lacan pode afirmar que a relação sexual é uma inscrição simbólica.
O Corpo na Psicanálise: Pulsional, Imaginário e Real
Se neste contexto, o corpo não é o organismo, então o que ele é?
Elia nos guia pelos três registros propostos por Lacan:
1. O Corpo Simbólico: É o corpo marcado, recortado e "mortificado" pela linguagem. Os órgãos só nos são acessíveis através das palavras e representações que deles temos. É o corpo que fala nos sintomas histéricos, onde um braço pode paralisar para expressar um conflito psíquico, é o que Freud chamou de "complacência somática". Significa que certas partes do corpo oferecem uma espécie de “disposição” ou “prontidão” para se tornarem palco da expressão do conflito inconsciente. Assim, o corpo fala nos sintomas histéricos, traduzindo o que não pode ser dito diretamente em palavras.
2. O Corpo Imaginário: É a imagem unificada do corpo, a "boa forma" que nos dá a sensação de totalidade. Essa imagem é construída no que Lacan denominou de estádio do espelho, um momento fundamental de alienação e identificação. É a base do narcisismo, que é, nas palavras de Freud, uma "nova ação psíquica" que sexualiza o eu. Sem essa operação, o corpo seria vivido como despedaçado. Ou seja, o corpo imaginário é uma ficção necessária: não é o corpo biológico em si, mas uma construção simbólica que dá forma e unidade ao sujeito.
3. O Corpo Real: É o corpo que escapa a toda simbolização e a toda imagem. É o corpo do gozo, do excesso, da dor e da pulsão de morte. É o que irrompe nos momentos de **angústia**, quando a fantasia que sustenta nossa imagem se desfaz e nos sentimos invadidos por um real sem sentido. Na leitura lacaniana:
O corpo real é aquilo que escapa tanto à simbolização quanto à imagem. Não se trata do corpo biológico em si, mas do corpo como lugar de um gozo que não se deixa traduzir em palavras ou imagens.
Ele se manifesta nos momentos em que a fantasia que normalmente sustenta nossa relação com o corpo imaginário que se desfaz. É aí que surge a angústia, porque o sujeito se vê invadido por um excesso sem sentido, um real que não pode ser simbolizado.
Esse corpo é também o lugar da pulsão de morte, da dor e do excesso, aquilo que insiste além do prazer e da ordem simbólica.
É justamente nesse ponto que Lacan mostra como o real é inseparável da experiência clínica: o sintoma, a angústia, o gozo
Prazer, Gozo e Angústia: As Aventuras do Corpo
A partir dessa base, Elia nos apresenta as coordenadas da experiência subjetiva.
O prazer está ligado ao princípio de homeostase, à redução da tensão.
O gozo é o "mais além" do prazer, em outras palavras é o excesso. É o resto não assimilável da operação da linguagem no corpo, o que não serve para nada, um prazer na dor, um excesso que pode ser tão devastador quanto fascinante.
A angústia, por fim, é o único afeto que não mente, não dá para esconder. Ela não é medo de algo concreto, mas a experiência do sujeito diante do desejo do Outro, diante do real. É o sinal de que a construção imaginária do corpo está ameaçada, e o sujeito se vê frente a frente com sua própria condição de objeto.
O trabalho de Luciano Elia nos deixa uma lição fundamental para a clínica: Não se trata de "cuidar do corpo" como se ele fosse um órgão separado, nem de "liberar a sexualidade" como se ela fosse uma energia instintiva a ser desobstruída.
Na psicanálise, o corpo é a escrita do desejo. Ele é o lugar onde se inscrevem os significantes da nossa história, as marcas do encontro com o Outro. A sexualidade é o nome desse enigma, dessa falta estrutural que nos move e nos constitui como sujeitos.
É por isso que, no divã, não se fala apenas "sobre" o corpo; o próprio corpo fala, através dos sintomas, das inibições e da angústia, testemunhando a verdade que incomoda, porém libertadora, de que somos, antes de tudo, seres de linguagem e de desejo.
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