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Para Além do Biológico: O Corpo e a Sexualidade pelo viés da Psicanálise

O Texto é um resumo comentado da obra de Luciano Elia, intitulado: "O Corpo e a Sexualidade na Psicanálise de Freud e Lacan"


Por Paulo César Galetto - Psicanalista Didata

Diretor da Academia Tríade da Psicanálise


Segundo Elia, no senso comum e em muitas abordagens psicológicas e da área da saúde, o corpo é visto como uma máquina biológica, uma estrutura dada, que interage com a mente. A sexualidade, por sua vez, é frequentemente reduzida a uma função instintiva, cujo objetivo final seria a reprodução e a complementaridade entre os sexos.


Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Será que o corpo que sofre, que sente prazer e que adoece é o mesmo corpo descrito nos manuais de anatomia? E a sexualidade, seria ela apenas um impulso natural que precisa ser domesticado?


Em seu livro "Corpo e sexualidade em Freud e Lacan", o psicanalista Luciano Elia nos convida a uma viagem radical para fora desse território familiar. Ele nos mostra que a psicanálise, desde Freud, opera uma verdadeira subversão: o corpo e a sexualidade de que ela trata não são os mesmos da psicologia ou da biologia.


A Ruína do Indivíduo Psicofísico


A psicologia tradicional, herdeira do positivismo, concebe o ser humano como um indivíduo psicofísico: Ou seja, uma unidade harmoniosa onde o corpo (organismo) e a mente (funções superiores) coexistem de forma integrada. O corpo é o suporte, e a sexualidade é apenas uma função entre outras, como a nutrição ou a cognição.


O problema, como Elia demonstra, é que a psicanálise desmembra essa unidade. O golpe vem de dois conceitos fundamentais: o inconsciente e a pulsão.

Parafraseando Freud, o inconsciente divide o indivíduo, revelando que ele não é senhor nem de sua própria casa. A pulsão, por sua vez, é o conceito limite que rompe definitivamente com a ideia de um ser uno e integrado.


Pulsão × Instinto: Uma Diferença importante para quem estuda a psicanálise


A grande virada freudiana está em distinguir a pulsão (Trieb) do instinto. Enquanto o instinto é um padrão fixo, hereditário e com um objeto pré-determinado, como por exemplo, (a fome busca o alimento), a pulsão não traz consigo o objeto fixado ou um destino específico.

Ela é uma "exigência de trabalho" feita ao psiquismo em sua ligação com o corpo. Seu objeto é o mais variável, escolhido apenas por sua capacidade de proporcionar satisfação e de preferência imediata.


Isso tem uma consequência clínica e teórica imensa: a sexualidade humana não é instintiva. Não há um objeto "natural" ou "adequado" para o desejo. A famosa "escolha de objeto" é sempre um enigma a ser decifrado na história singular de cada sujeito.


A Sexualidade é Infantil... e Isso Não Tem Nada a Ver com Idade ou com o ato


O título deste parágrafo, é para destacar que a sexualidade é um campo psíquico estruturado pela linguagem e pelo desejo e não pelo ato em si.


Quando Freud fala em "sexualidade infantil", ele não está dizendo que as crianças têm uma versão imatura da sexualidade dos adultos. O que ele quis mostrar é como se desenvolve a sexualidade desde criança até chegar na fase adulta. A tese de Elia é mais ousada: Ele descreve: só existe a sexualidade infantil. O infantil, aqui, é um substantivo, não um adjetivo.


Isso significa que a sexualidade do ser falante é, por estrutura, marcada pela "falta", pelo "parcial" e pelo "recorte". Ela não visa a completude ou a reprodução. A prova disso é o que Freud descobre sobre o inconsciente: ele não registra os dois sexos (pênis e vagina) como um par complementar. O que se inscreve é o "falo", não como órgão, mas como significante da falta e da diferença sexual.

É por isso que Lacan pode afirmar que a relação sexual é uma inscrição simbólica.


O Corpo na Psicanálise: Pulsional, Imaginário e Real


Se neste contexto, o corpo não é o organismo, então o que ele é?

Elia nos guia pelos três registros propostos por Lacan:


1. O Corpo Simbólico: É o corpo marcado, recortado e "mortificado" pela linguagem. Os órgãos só nos são acessíveis através das palavras e representações que deles temos. É o corpo que fala nos sintomas histéricos, onde um braço pode paralisar para expressar um conflito psíquico, é o que Freud chamou de "complacência somática". Significa que certas partes do corpo oferecem uma espécie de “disposição” ou “prontidão” para se tornarem palco da expressão do conflito inconsciente. Assim, o corpo fala nos sintomas histéricos, traduzindo o que não pode ser dito diretamente em palavras.


2. O Corpo Imaginário: É a imagem unificada do corpo, a "boa forma" que nos dá a sensação de totalidade. Essa imagem é construída no que Lacan denominou de estádio do espelho, um momento fundamental de alienação e identificação. É a base do narcisismo, que é, nas palavras de Freud, uma "nova ação psíquica" que sexualiza o eu. Sem essa operação, o corpo seria vivido como despedaçado. Ou seja, o corpo imaginário é uma ficção necessária: não é o corpo biológico em si, mas uma construção simbólica que dá forma e unidade ao sujeito.


3. O Corpo Real: É o corpo que escapa a toda simbolização e a toda imagem. É o corpo do gozo, do excesso, da dor e da pulsão de morte. É o que irrompe nos momentos de **angústia**, quando a fantasia que sustenta nossa imagem se desfaz e nos sentimos invadidos por um real sem sentido. Na leitura lacaniana:

  • O corpo real é aquilo que escapa tanto à simbolização quanto à imagem. Não se trata do corpo biológico em si, mas do corpo como lugar de um gozo que não se deixa traduzir em palavras ou imagens.

  • Ele se manifesta nos momentos em que a fantasia que normalmente sustenta nossa relação com o corpo imaginário que se desfaz. É aí que surge a angústia, porque o sujeito se vê invadido por um excesso sem sentido, um real que não pode ser simbolizado.

  • Esse corpo é também o lugar da pulsão de morte, da dor e do excesso, aquilo que insiste além do prazer e da ordem simbólica.


É justamente nesse ponto que Lacan mostra como o real é inseparável da experiência clínica: o sintoma, a angústia, o gozo


Prazer, Gozo e Angústia: As Aventuras do Corpo


A partir dessa base, Elia nos apresenta as coordenadas da experiência subjetiva.

  • O prazer está ligado ao princípio de homeostase, à redução da tensão.

  • O gozo é o "mais além" do prazer, em outras palavras é o excesso. É o resto não assimilável da operação da linguagem no corpo, o que não serve para nada, um prazer na dor, um excesso que pode ser tão devastador quanto fascinante.

  • A angústia, por fim, é o único afeto que não mente, não dá para esconder. Ela não é medo de algo concreto, mas a experiência do sujeito diante do desejo do Outro, diante do real. É o sinal de que a construção imaginária do corpo está ameaçada, e o sujeito se vê frente a frente com sua própria condição de objeto.


O trabalho de Luciano Elia nos deixa uma lição fundamental para a clínica: Não se trata de "cuidar do corpo" como se ele fosse um órgão separado, nem de "liberar a sexualidade" como se ela fosse uma energia instintiva a ser desobstruída.


Na psicanálise, o corpo é a escrita do desejo. Ele é o lugar onde se inscrevem os significantes da nossa história, as marcas do encontro com o Outro. A sexualidade é o nome desse enigma, dessa falta estrutural que nos move e nos constitui como sujeitos.


É por isso que, no divã, não se fala apenas "sobre" o corpo; o próprio corpo fala, através dos sintomas, das inibições e da angústia, testemunhando a verdade que incomoda, porém libertadora, de que somos, antes de tudo, seres de linguagem e de desejo.


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