Vida e Morte na Psicanálise: Um Guia pelos Grandes Autores

Desde as primeiras sessões, muitos analistas se deparam com um paradoxo: pacientes que, apesar de buscarem cura, parecem empurrados por uma força interna a repetir sofrimentos, sabotar conquistas ou atacar o próprio processo terapêutico. O que move essas forças?

Prof. Paulo C. Galetto - Psicanalista Didata

10/6/20264 min read

Por que a agressividade e a repetição são centrais na clínica?

Desde as primeiras sessões, muitos analistas se deparam com um paradoxo: pacientes que, apesar de buscarem cura, parecem empurrados por uma força interna a repetir sofrimentos, sabotar conquistas ou atacar o próprio processo terapêutico. O que move essas forças?
Neste artigo, exploramos como cinco gigantes da psicanálise, Freud, Melanie Klein, Winnicott, Bion e Lacan responderam a essa questão através do conceito de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Thanatos). De uma visão biológica inicial até uma reformulação estrutural na linguagem, entenda como cada autor iluminou a complexidade da mente humana.

1. Freud: A Inauguração do Dualismo

Em 1920, com Além do Princípio do Prazer, Sigmund Freud revolucionou a teoria psicanalítica ao propor que não somos movidos apenas pelo prazer. Ele introduziu o dualismo fundamental:
  • Eros (Pulsões de Vida): Buscam ligação, unificação e conservação da vida.
  • Thanatos (Pulsão de Morte): Visa a redução da tensão, o retorno ao estado inorgânico e a compulsão à repetição.
Freud percebeu que, clinicamente, a pulsão de morte muitas vezes se manifesta como agressividade, sadismo, masoquismo ou aquela "reação terapêutica negativa", onde o paciente piora justamente quando começa a melhorar. Para Freud, isso não era um erro, mas a prova de uma força primitiva que busca zerar a excitação (Princípio de Nirvana).
Na clínica: É comum vermos essa dinâmica em casos de neurose obsessiva e melancolia, onde a agressividade é voltada contra o próprio eu, gerando culpa e autossabotagem.

2. Melanie Klein: A Pulsão de Morte desde o Berço

Melanie Klein não apenas adotou a ideia de Freud, mas a radicalizou. Para ela, a pulsão de morte não é algo tardio; ela está presente desde os primeiros meses de vida.
Para Klein, a vida psíquica começa sob o domínio da Posição Esquizo-Paranoide, marcada por angústias de aniquilamento. O bebê, incapaz de integrar amor e ódio, projeta sua agressividade no objeto (a mãe/seio), criando objetos "bons" e "maus". Somente por volta dos seis meses, com a emergência da Posição Depressiva, o sujeito reconhece a ambivalência e surge o desejo de reparação.
Na clínica: A análise de crianças kleiniana revela essa oscilação constante. O trabalho do analista é ajudar a integrar essas partes mortíferas, permitindo que o ódio e o amor coexistam em relação ao mesmo objeto, facilitando a capacidade de reparação.

3. Winnicott: Uma Crítica ao Instinto de Morte

Diferentemente de seus contemporâneos, Donald Winnicott rejeitou a utilidade teórica da pulsão de morte como um instinto biológico inato.
Para Winnicott, a agressividade não precisa ser derivada de uma força de destruição interna. Ela é, antes de tudo, uma reação ao ambiente. Se o cuidado precoce falha, se a "mãe suficientemente boa" não consegue conter as angústias do bebê, surgem comportamentos destrutivos. A destrutividade, nesse sentido, é um sinal de falha na experiência relacional, não de um destino biológico.
Na clínica: Casos de "Falso Self" ou falta de espontaneidade são lidos como consequências de falhas ambientais precoces. O tratamento foca em oferecer um ambiente seguro (holding) que permita a regressão e o renascimento do Self Verdadeiro.

4. Bion: O Ódio à Realidade e o Pensamento

Wilfred Bion trouxe uma perspectiva única, articulando a pulsão de morte com a capacidade de pensar. Influenciado por Klein, Bion vê a agressividade como um ódio à realidade frustradora.
Quando a experiência emocional é muito intensa para ser suportada, o sujeito pode desenvolver um ataque contra a própria função de pensar. Bion descreve isso através dos vínculos L (Amor), H (Ódio) e K (Conhecimento). A pulsão de morte aparece quando o sujeito ataca o vínculo, recusando-se a elaborar a dor.
Na clínica: Em casos de psicose ou pacientes que "atacam o vínculo" terapêutico, o analista atua como um continente (função de reverie), transformando elementos indigestos (Beta) em pensamentos pensáveis (Alpha), contrapondo-se à desintegração mental.

5. Lacan: Toda Pulsão é Pulsão de Morte

Jacques Lacan deu um giro radical na discussão. Ao afirmar que "toda pulsão é pulsão de morte", ele não nega o Eros, mas destaca a natureza repetitiva e insatisfeita do circuito pulsional.
Para Lacan, a pulsão não é um impulso biológico, mas uma montagem estrutural na linguagem que gira em torno de um vazio (o objeto perdido). A "morte" aqui refere-se ao Real — aquilo que resiste à simbolização e que gera um gozo que excede o prazer. A agressividade, então, é vista como efeito da formação do Eu no Estádio do Espelho, marcada pela fragmentação e rivalidade narcísica.
Na clínica: O tratamento lacaniano não visa a adaptação, mas o deslocamento desse gozo que se agarra ao sintoma. Pacientes que repetem sofrimentos estão, na visão de Lacan, presos a uma lógica de desejo onde o sofrimento é o único modo de sustentar o laço com o Outro.

Síntese: Como Cada Autor Enxerga a Questão

Leitura Recomendada para Aprofundamento

Se você deseja mergulhar mais fundo nestes temas, sugerimos:
  • Freud: Além do Princípio do Prazer e O Mal-Estar na Civilização.
  • Klein: Inveja e Gratidão e textos sobre a posição depressiva.
  • Winnicott: O Brincar e a Realidade.
  • Bion: Aprender com a Experiência.
  • Lacan: A Agressividade em Psicanálise e o Seminário 11.

Este artigo foi elaborado com base em fontes acadêmicas e revisões clínicas, visando trazer clareza aos conceitos complexos da psicanálise para estudantes e profissionais da área.

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