Rubicão: Quando atravessar é um ato!

Da decisão de César à travessia analítica em Lacan.

TEXTOS LACAN

Prof. Paulo C. Galetto - Psicanalista Didata

10/28/20265 min read

Da decisão de César à travessia analítica em Lacan
Há rios que não são apenas geografia. O Rubicão, no nordeste da Itália, é um deles. Em 49 a.C., Júlio César o atravessou com suas legiões, gesto proibido a qualquer general que marchasse em direção a Roma e selou seu destino com uma frase que atravessou dois milênios: alea jacta est, "a sorte está lançada". Não havia retorno possível. O que se seguiu foi a guerra civil que dissolveu a República e pariu o Império.
Desde então, "cruzar o Rubicão" deixou de nomear um acidente histórico e passou a designar uma estrutura: o ponto de não retorno, o instante em que uma decisão reorganiza tudo o que vem antes e depois dela. A metáfora migrou para a pedagogia, para a política, para a vida cotidiana e, como veremos, para a psicanálise, onde encontra talvez sua formulação mais rigorosa.
Mas por que essa imagem resiste? Talvez porque ela nomeie algo que a linguagem comum insiste em disfarçar: há decisões que não são apenas escolhas entre alternativas, mas rupturas que constituem o próprio sujeito que decide. Não se trata de "mudar de ideia", trata-se de tornar-se outro. É essa estrutura que nos interessa aqui, e é ela que a educação e a psicanálise, cada uma a seu modo, permitem pensar.
O Rubicão na educação: a criança que desperta
Na pedagogia Waldorf, inspirada em Rudolf Steiner, o desenvolvimento humano é pensado em ciclos setenários. Por volta dos nove anos, a criança atravessa o que se convencionou chamar de fase do Rubicão. Até então, ela vivia imersa numa espécie de continuidade com o mundo, o eu e o ambiente ainda pouco se distinguiam. Aos nove anos, algo se rompe: emerge a individualidade, e com ela a percepção de que o mundo não é uma extensão de si mesma.
É uma travessia silenciosa, mas decisiva. A criança descobre que é um sujeito entre outros, que pode perguntar, duvidar, discordar. Perde a segurança indiferenciada da primeira infância e ganha algo mais custoso e mais precioso: um lugar próprio. Como César diante do rio, ela não pode simplesmente voltar atrás,  a consciência que despertou não se desfaz.
Vale sublinhar o que essa leitura pedagógica tem de contraintuitivo. Costumamos pensar a infância como um período de aquisições cumulativas,  a criança aprende a andar, a falar, a ler, e assim por diante. A metáfora do Rubicão interrompe essa linearidade: há um momento em que o desenvolvimento não acrescenta, mas corta. A criança não ganha uma habilidade nova; ela perde uma forma de habitar o mundo e ganha, em troca, a experiência da separação. É desse corte que nasce a possibilidade de dizer "eu" e, com ela, a de dizer "não".
O Rubicão em Lacan: o ato como corte
É na psicanálise, porém, que a metáfora ganha densidade conceitual. Jacques Lacan dedicou um seminário inteiro, o Seminário 15, O ato psicanalítico (1967-1968) a pensar o que significa agir no sentido forte do termo.
Para Lacan, um ato não é qualquer comportamento nem qualquer decisão consciente. O ato tem relação essencial com a palavra e produz uma transformação irreversível na posição subjetiva de quem o realiza. Não se trata de "mudar de ideia"; trata-se de atravessar um limite que reconfigura o próprio sujeito. Depois do ato, não há mais o mesmo sujeito de antes.
Essa definição é exigente e exclui muita coisa que chamamos habitualmente de "agir". Assinar um contrato, mudar de emprego, terminar um relacionamento, nada disso é necessariamente um ato, no sentido lacaniano. O ato exige que o sujeito se comprometa com uma palavra que o ultrapassa, que assuma uma consequência que ele não controla inteiramente. É por isso que o ato tem algo de vertiginoso: ele não é a expressão de uma vontade soberana, mas um lance em que o sujeito arrisca sua própria posição.
Lacan insiste que a entrada em análise já é, ela mesma, um ato: o analisante supõe um saber ao analista e, a partir dessa suposição, abre a possibilidade de romper com a repetição. É o que ele nomeia sujeito suposto saber. Mas o ato psicanalítico propriamente dito é o do analista aquele que sustenta esse lugar e, no fim, precisa consentir em cair dele.
Alienação, verdade e o fim da análise
No Seminário 15, Lacan retoma as operações que já havia trabalhado no Seminário 11, sobre alienação e separação, mas as reformula em novos termos: agora, alienação e verdade, articuladas à proposição cartesiana do cogito. A questão é como o sujeito se situa entre o saber e a verdade, e como essa divisão o constitui.
O momento nuclear do ato é o final da análise: a queda do sujeito suposto saber. Quando o analisante deixa de depositar no Outro a ilusão de completude, algo se precipita, um momento de indeterminação produtiva. É aí que Lacan afirma algo desconcertante: não há psicanalisado, mas apenas um "tendo sido psicanalisante". A análise não produz um estado final, um sujeito curado e acabado; produz uma posição.
Essa travessia tem nome preciso no vocabulário lacaniano: o atravessamento do fantasma, a travessia dos processos de identificação. Não é uma revolução, e Lacan é explícito quanto a isso. Uma revolução astronômica é o corpo celeste que volta sempre ao mesmo lugar. A análise não promete o extraordinário; promete uma transformação radical do infraordinário: uma vida um pouco menos confusa, um pouco mais satisfatória, um desejo assumido em suas consequências.
Há aqui uma advertência importante contra certa idealização da análise e, por extensão, de qualquer processo de transformação subjetiva. Não se trata de atingir a plenitude, a harmonia ou a cura definitiva. Trata-se de assumir uma falta que não se preenche, de habitar uma divisão que não se resolve. O "tendo sido psicanalisante" não designa alguém que chegou a algum lugar, mas alguém que atravessou e que carrega, na própria formulação do termo, a marca de que o percurso não se fecha.
Duas margens, uma mesma estrutura
Educação e psicanálise, separadas por métodos e finalidades, convergem aqui. Ambas lidam com limites que, uma vez atravessados, não se desfazem. A criança waldorfiana que desperta para a individualidade e o analisante que atravessa o fantasma compartilham a mesma gramática: houve um antes, haverá um depois, e o sujeito responde por essa passagem.
Essa convergência não é acidental. Tanto a pedagogia quanto a psicanálise lidam com aquilo que, no sujeito, resiste à simples instrução ou à simples correção. Não se ensina uma criança a despertar para a individualidade, assim como não se prescreve a um analisante o fim de sua análise. Em ambos os casos, trata-se de acompanhar um processo cuja estrutura é a de uma travessia e cuja condição é que o próprio sujeito se comprometa com ela.
Talvez esteja aí a força da metáfora do Rubicão. Ela não descreve um obstáculo a ser vencido, mas um limiar a ser habitado. César não "resolveu" o rio: ele o cruzou e assumiu as consequências. O sujeito não elimina o inconsciente; ele aprende a responder por aquilo que o habita.
"Alea jacta est." "A sorte está lançada." E o horizonte, como diria quem já atravessou, é prometedor, não porque o rio tenha deixado de existir, mas porque, depois da travessia, é outra margem que se pode habitar.
Texto adaptado a partir de "Rubicão: um rio metáfora para educação e psicanálise" (Portal UAI), com desenvolvimento conceitual baseado no Seminário 15 de Jacques Lacan, O ato psicanalítico (1967-1968).