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Revêrie, Holding e Linguagem: Três pilares que se complementam na clínica psicanalítica

  • Foto do escritor: Renata Ferreira
    Renata Ferreira
  • 8 de abr.
  • 3 min de leitura

Se você já se perguntou como nasce a capacidade de pensar, ou o que sustenta um paciente diante do vazio, angústia ou caos emocional, a psicanálise oferece caminhos que se complementam para essa resposta.

A Psicanalista didata Renata Ferreira, apresenta um texto contemplando três autores são essenciais aqui: Wilfred Bion, Donald Winnicott e Jacques Lacan. Cada um lança luz sobre um aspecto diferente da constituição psíquica e da prática clínica.

Vamos a eles.


Bion e o Termo "Revêrie": quando o pensamento ainda não existe


Para Bion, o ser humano, não nasce sabendo pensar. Nasce com:

  • Preconcepções (expectativas de satisfação);

  • Angústias intensas, ainda sem forma.


Essas experiências iniciais são chamadas de "elementos beta": Sensações brutas, como um grito sem palavras, um incômodo sem nome. O bebê precisa "expulsar" isso, ou seja, projetar para fora.


Sendo assim, "Revêrie", é a capacidade da mãe (ou do analista) de receber, suportar e transformar essas emoções brutas.


Ela funciona como um sistema digestivo psíquico:

  1. O bebê projeta seus elementos beta.

  2. A mãe recebe por identificação projetiva.

  3. Em estado de revêrie, ela metaboliza essa angústia.

  4. Devolve algo transformado, agora como "elementos alfa", (base do pensamento, memória, simbolização).


Para Bion, se a função revêrie falha, não há transformação. A angústia retorna de forma caótica, e a capacidade de pensar fica prejudicada.


Winnicott e o Holding: "Sustentar" para existir


Winnicott nos lembra que, antes de transformar, é preciso segurar.

O "Holding", neste exemplo serve como sustentação física e principalmente emocional que garante continuidade e segurança ao bebê.


Enquanto a função revêrie transforma, o que é vivido emocionalmente, o holding sustenta o sujeito.

Esses dois processos são especialmente cruciais em:

  • Estados pré-verbais

  • Quadros borderline

  • Psicoses


Sem sustentação, a experiência emocional desmorona. Sem transformação, ela nunca vira pensamento.


Lacan e a linguagem: o sujeito no simbólico


Lacan desloca o foco: "o inconsciente é estruturado como linguagem".

O sujeito se constitui no campo simbólico, pelas palavras, pelos significantes que vêm do Outro.


Para ele, a angústia não é algo bruto, mas ele considera um sinal do Real, aquilo que escapa à simbolização, que não pode ser dito. A angústia surge quando falha a mediação simbólica.


A mãe, em Lacan, não é apenas acolhedora. Ela:

  • Está inserida no campo do desejo

  • Oferece significantes ao bebê

  • Introduz a criança na ordem simbólica


E mais: a mãe também é um sujeito desejante, marcada pela falta. Isso é fundamental para que o bebê não fique "colado" ao gozo materno, abrindo espaço para a diferença e a separação.


No estádio do espelho, o bebê se reconhece numa imagem unificada, mas esse "eu" é imaginário, narcísico, baseado numa imagem externa.


Diferenças clínicas importantes



Lacan nos adverte:

  • O analista não deve apenas sustentar o eu, mas ler o sujeito do inconsciente.


Integração na prática clínica


Esses conceitos não se excluem, se complementam:


  • Holding (Winnicott): oferece base de segurança

  • Revêrie (W. Bion): transforma emoções não simbolizadas

  • Linguagem (Lacan): organiza e dá estrutura à experiência


Com essa tríade, é possível trabalhar clinicamente com:

  • Angústias intensas

  • Silêncios

  • dificuldades de simbolização

  • Experiências de vazio ou fragmentação


Síntese final


O sujeito humano se constitui a partir de três movimentos indissociáveis:

  • da **transformação da experiência emocional** (Bion)

  • da **sustentação do ambiente** (Winnicott)

  • da **entrada na linguagem e no desejo** (Lacan)


Cada paciente nos pede um desses gestos em momentos diferentes. A arte da clínica está em saber quando sustentar, quando transformar e quando interpretar na estrutura.


Renata Ferreira

Psicanalista didata

(11) 98994-4689

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3 comentários

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Academia Tríade da Psicanálise
15 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Percepção importante sobre conceito associado a clínica. Parabéns!!

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Convidado:
09 de abr.

Parabéns pelas observações

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Nelita
08 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Ótimo texto Renata. Um tripé clínico muito bem argumentado e desenvolvido, podendo servir como a base de diversos psicanalistas.

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