Relacionamentos: o encontro com o Outro e as repetições amorosa
- Crisney Barbosa

- 20 de ago.
- 4 min de leitura
Será que um relacionamento dura para sempre? O que sustenta uma relação: confiança plena, amor, desejo, companheirismo ou a capacidade de compreender o outro e a si mesmo?
Os relacionamentos são atravessados por inúmeras questões: conflitos familiares, dificuldades financeiras, diferenças de desejos, expectativas, frustrações, inseguranças e experiências anteriores que, muitas vezes, continuam presentes mesmo quando acreditamos ter iniciado uma nova história.
Ao buscar compreender ou conquistar alguém, podemos nos deparar, inconscientemente, com marcas das figuras materna e paterna. Não significa que estamos simplesmente procurando uma mãe ou um pai no parceiro, mas que determinados modos de amar, cuidar, desejar, proteger, cobrar ou até mesmo abandonar podem estar relacionados às experiências constituídas ao longo de nossa história.
No caso clínico que acompanho, percebo que o conflito amoroso do paciente se estabelece, em parte, a partir de questões financeiras e da imagem materna. O paciente demonstra uma necessidade de se firmar profissionalmente, buscando estabilidade e reconhecimento nesse campo, mas encontra dificuldades para estabelecer um equilíbrio em seus relacionamentos afetivos. Ao mesmo tempo, observa-se a busca por uma figura que se aproxime da experiência de cuidado associada à mãe, o que pode indicar a presença de elementos da relação materna sendo reatualizados em seus vínculos amorosos. Dessa forma, o conflito parece se constituir entre a necessidade de autonomia e afirmação profissional e a busca por segurança, cuidado e amparo no campo afetivo.
É nesse ponto que a psicanálise nos convida a olhar para aquilo que se repete.
Por que escolho determinadas relações?
Por que determinados conflitos aparecem novamente?
Por que desejo alguém que, posteriormente, me causa sofrimento?
Por que permaneço em uma relação quando, internamente, já percebi que algo não está mais funcionando?
Freud nos permite pensar a repetição como algo que ultrapassa a simples escolha consciente. O sujeito pode repetir experiências, posições e formas de se relacionar sem compreender inteiramente por que o faz. A repetição, portanto, pode revelar algo que ainda não foi elaborado.
Em Lacan, essa discussão ganha outra dimensão quando encontramos a formulação de que “o desejo do homem é o desejo do Outro” (LACAN, 1964, p. 222-223)., ao pensar o desejo e a relação com o Outro, nos conduz a uma questão fundamental: o que buscamos no outro? Talvez não seja apenas o amor de alguém, mas também o reconhecimento, a confirmação de nossa existência, o sentimento de sermos desejados e a tentativa de preencher uma falta que, entretanto, nenhum relacionamento consegue eliminar completamente.
Por isso na perspectiva freudiana, a escolha amorosa pode carregar marcas de experiências anteriores, pois “o encontro do objeto é, na verdade, um reencontro” (FREUD, 1905, p. 210). Algumas relações começam como encontro e terminam transformando-se em cobrança, frustração, ciúme, conflitos, silêncios e distanciamentos. O que inicialmente era desejo pode tornar-se expectativa; o que era cuidado pode transformar-se em controle; aquilo que parecia segurança pode converter-se em dependência emocional.
E quem inicia o conflito?
Talvez essa não seja a pergunta mais importante para a psicanálise e sim o que está sendo colocado em jogo nesse conflito? O conflito pode revelar aquilo que o sujeito não consegue dizer diretamente. Às vezes, o sofrimento aparece no silêncio, na irritação, na distância, nas discussões constantes ou em um sentimento difícil de explicar. Aquilo que não encontra palavras pode procurar outras formas de expressão.
Há também relações sustentadas por aquilo que um oferece ao outro: prazer, segurança, realização, companhia, projetos, sonhos compartilhados ou reconhecimento. Isso faz parte da vida amorosa. Entretanto, quando a relação passa a existir somente pelo benefício que cada um obtém, surge uma questão: ainda estamos diante de um encontro entre sujeitos ou apenas diante de uma relação de necessidades?
E quando duas pessoas permanecem juntas, mas passam a viver como amigos, quem sofre? Talvez sofra aquele que primeiro percebe que alguma coisa mudou. Aquele que, em silêncio, começa a olhar para a própria relação e pensar:
“Preciso rever o que sinto.”
Esse momento pode ser doloroso, porque rever uma relação também significa rever a própria posição dentro dela. Significa perguntar o que desejo, o que espero do outro, o que repito e aquilo que talvez tenha escolhido sem perceber.
A psicanálise não oferece uma fórmula para manter um relacionamento nem determina quando alguém deve permanecer ou partir. Sua proposta é outra: possibilitar que o sujeito fale, escute a si mesmo e produza novas significações sobre sua história.
Na experiência analítica, podemos tocar justamente nessas repetições amorosas, nos desejos não realizados, nas fantasias, nas expectativas e nas marcas deixadas pelas primeiras relações.
Porque, muitas vezes, o conflito que aparece no relacionamento atual também nos coloca diante de uma pergunta mais profunda: “O que, em mim, está sendo repetido nessa relação?”
Olhar profundamente para o próprio eu não sou uma tarefa simples. Há aquilo que não queremos ver, aquilo que negamos e aquilo que ainda não conseguimos elaborar.
Talvez o relacionamento com o outro também seja uma oportunidade de encontro consigo mesmo.
Não para encontrar no parceiro aquilo que falta, mas para compreender o que fazemos com nossas faltas, nossos desejos, nossas escolhas e nossas repetições.
O amor envolve encontro, desejo, cuidado e reconhecimento. Mas também exige que cada sujeito possa olhar para si e perguntar: quem sou eu quando estou diante do Outro?
É nesse percurso de escuta, elaboração e compreensão que a psicanálise pode abrir espaço para um novo olhar sobre os relacionamentos.
E como freud já apontava sobre o sujeito, entretanto, não possui domínio absoluto sobre aquilo que o move, uma vez que “o eu não sou senhor nem mesmo em sua própria casa” (FREUD, 1917, p. 261).
Prof. Crisney Barbosa
Psicanalista Clínico, Didata e Neuropsicanalista
Referências:
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976
FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
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Crisney, muito Boa reflexão! Tema de contemporânea relevância e super necessário. Me fez lembrar três importantes filósofos: Platão (República), Jean-Paulo Sarte (Ser e o Nada) e Emanuel Levinas (Totalidade e Infinito). Finalizo com uma frase que inicia um dos capítulos da obra Totalidade e Infinito desse último autor: "A verdadeira vida está ausente. Mas nós estamos no mundo".
Crisney.
Texto muito profundo e sensível. Você traz uma reflexão importante sobre como os relacionamentos não são apenas encontros do presente, mas também carregam marcas da nossa história e das nossas repetições inconscientes.
Achei especialmente interessante a forma como você articula a busca por amor com a necessidade de reconhecimento e como isso pode se transformar em conflitos quando não é elaborado. A leitura convida à autorreflexão — não apenas sobre o outro, mas sobre o que cada um repete e sustenta nas próprias relações.
Um conteúdo que toca, faz pensar e mostra com clareza o papel da psicanálise como espaço de escuta e transformação.
Repensar as relações humanas sejam elas amorosas ou não é uma forma de olhar de volta para si mesmo, buscando reconstruir o que eventualmente possa ter ficado para trás, ou passado despercebido. Ótima reflexão.
Um convite interessante para reflexão!! Mto bom Crisney.