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Linguística, Filosofia e Psicanálise: De Saussure a Lacan, com Hegel no Meio do Caminho

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 17 de mar.
  • 9 min de leitura

Entenda como as ideias de Saussure sobre a língua se encontraram com a dialética hegeliana do reconhecimento, influenciaram Jakobson, Hjelmslev, Benveniste e foram transformadas por Lacan para desvendar o inconsciente.



Com base na obra "Linguística Geral de Ferdinand Saussure" de Valdir do Nascimento Flores, podemos traçar um panorama da influência do mestre genebrino sobre os principais nomes da linguística do século XX e, por fim, compreender como Jacques Lacan apropriou-se desses conceitos para revolucionar a psicanálise. O resumo comentado a seguir articula as teorias de Roman Jakobson, Louis Hjelmslev e Émile Benveniste, estabelecendo um diálogo direto com as ideias fundadoras de Saussure e culminando na releitura psicanalítica de Lacan.


Introdução: Quando a Linguagem e o Sujeito se Encontram

Você já parou para pensar que a linguagem não é apenas uma ferramenta para se comunicar, mas a própria estrutura que nos constitui como sujeitos? E que essa constituição passa, necessariamente, por um outro, que nos reconhece e a quem nos dirigimos?

Essa dupla percepção, a da estrutura da língua e a da intersubjetividade tem duas grandes fontes na tradição do pensamento ocidental: de um lado, a linguística de Ferdinand de Saussure; de outro, a filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. No século XX, esses dois rios se encontraram, alimentaram a antropologia, a teoria da comunicação e, de forma radical, a psicanálise de Jacques Lacan.


Neste texto, pretendo explorar como esses quatro gigantes: Roman Jakobson, Louis Hjelmslev e Émile Benveniste na linguística, e Hegel na filosofia, expandiram e transformaram esse legado. Por fim, veremos como Jacques Lacan pegou todos esses conceitos e os virou do avesso para formular sua famosa tese e poder afirmar que: "O inconsciente é estruturado como uma linguagem.


1. Ferdinand de Saussure: O Alicerce do Edifício Estrutural

Tudo começa com a obra póstuma de Saussure, o Curso de Linguística Geral (1916). Sua principal contribuição foi definir um objeto claro para a linguística: a língua. Para ele, a língua é um sistema de valores que existe na coletividade, social e relativamente estável. Ela se opõe à fala, que é a execução individual, livre e fugaz desse sistema por cada um de nós.

A unidade básica desse sistema é o signo linguístico, uma entidade psíquica de duas faces inseparáveis:

  • O significante: A "imagem acústica", ou seja, a forma da palavra, a sequência de sons que pronunciamos ou as letras que escrevemos.

  • O significado: O conceito, a ideia que associamos a essa forma.


A relação entre significante e significado é arbitrária. Não há nenhuma ligação natural entre a sequência de sons "c-a-v-a-l-o" e a ideia de um animal quadrúpede. Em inglês, a mesma ideia é expressa por "horse"; em francês, por "cheval". Isso prova que a língua não é uma nomenclatura que cola etiquetas no mundo, mas um sistema autônomo, uma estrutura que funciona por suas próprias regras internas.

É essa ideia de estrutura que será o ponto de partida para todos os autores que virão a seguir.


2. Roman Jakobson (1896-1982): A Comunicação e a Ponte com a Antropologia

Roman Jakobson foi um dos grandes responsáveis por levar as ideias de Saussure para além dos limites da linguística "pura", integrando-as à teoria da comunicação e, principalmente, à antropologia.


As Funções da Linguagem

Jakobson percebeu que, em todo ato de comunicação (a "fala" saussuriana), estão envolvidos seis fatores. A cada um deles, corresponde uma função da linguagem. Essa descoberta mostrou que falamos por muitas razões, não apenas para informar.

Fator da Comunicação

Função da Linguagem

O que ela faz

Exemplo

Emissor

Função Emotiva

Expressa as emoções e opiniões de quem fala

"Estou tão feliz com essa notícia!"

Receptor

Função Conativa

Busca influenciar o comportamento de quem ouve

"Feche a porta, por favor."

Contexto

Função Referencial

Representa o mundo, informa sobre a realidade

"A reunião começa às 10h."

Canal

Função Fática

Testa e mantém o contato, a comunicação

"Alô? Está me ouvindo?"

Código

Função Metalinguística

Usa a linguagem para falar dela mesma

"O que significa 'arbitrário'?"

Mensagem

Função Poética

Foca na própria mensagem, em sua forma e construção

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá."

Fonologia e a Ponte com a Antropologia

Jakobson também avançou nos estudos dos fonemas: as unidades distintivas mínimas da língua, que, embora não tenham significado próprio, são capazes de diferenciar significados (como a oposição entre /p/ /b/ ou /g/ que diferencia "pato" , "bato" que é diferente de "gato").

Essa abordagem estrutural da fonologia encontrou um eco poderoso no trabalho do antropólogo Claude Lévi-Strauss. Ele percebeu que as estruturas de parentesco e os mitos nas sociedades humanas funcionavam com a mesma lógica de oposições binárias e combinações presente na língua. Foi por meio dessa ponte construída por Jakobson que a antropologia estrutural nasceu, consolidando a visão de que a cultura, assim como a língua, é um grande sistema simbólico estruturado.


3. Louis Hjelmslev (1899-1965): A Forma Pura da Linguagem

Louis Hjelmslev levou o projeto saussuriano às suas últimas consequências com a criação da Glossemática, uma teoria da linguagem extremamente abstrata e formal. Seu objetivo era construir uma ciência da linguagem que fosse tão rigorosa quanto a lógica ou a matemática.

Hjelmslev radicalizou a distinção saussuriana entre forma e substância. Para ele, a língua não é feita de sons (substância sonora) nem de ideias (substância psicológica). A língua é, acima de tudo, uma pura forma, uma rede de relações e dependências internas. Imagine um jogo de xadrez: o que importa não é o material de que as peças são feitas (madeira, plástico, marfim – a substância), mas sim as posições e os movimentos que elas podem fazer (a forma).

Ele desmembrou o signo saussuriano em quatro estratos:

  • Forma do conteúdo e Substância do conteúdo (lado do significado).

  • Forma da expressão e Substância da expressão (lado do significante).


O objeto da linguística, para Hjelmslev, deveria ser apenas as formas (do conteúdo e da expressão), pois são elas que organizam e dão sentido às substâncias (o pensamento amorfo e o continuum sonoro). Com essa visão radical, ele reforçou a ideia de que a língua é um sistema fechado em si mesmo, cuja existência é puramente lógica e relacional, um avanço teórico fundamental para a consolidação do pensamento estruturalista.


4. Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831): O Filósofo da Intersubjetividade

Antes de chegarmos a Benveniste e Lacan, é preciso fazer uma escala na filosofia. Hegel é a grande fonte filosófica para a compreensão do sujeito como ser essencialmente relacional.

No centro de sua obra Fenomenologia do Espírito, encontramos a famosa dialética do senhor e do escravo. Para Hegel, a autoconsciência (a percepção de si mesmo como um "eu") não é um dado inato, nem uma descoberta solitária que fazemos olhando para dentro de nós mesmos. Ela só pode emergir através do reconhecimento por outra consciência.

Em outras palavras: o "eu" só se torna "eu" quando é reconhecido por um "tu". Sem esse encontro, sem esse embate, sem essa relação, a consciência permanece fechada em si mesma, incapaz de se objetivar, de se ver de fora.

O desejo fundamental do ser humano, para Hegel, não é desejo de um objeto, mas desejo de reconhecimento. Queremos ser reconhecidos como sujeitos por outros sujeitos.

Essa ideia é a pedra fundamental de toda a reflexão posterior sobre a intersubjetividade. Ela nos diz que o sujeito não pré-existente à relação; ele é constituído na e pela relação com o outro.


5. Émile Benveniste (1902-1976): O Surgimento do Sujeito na Linguagem

Émile Benveniste operou uma revolução dentro do próprio estruturalismo ao traduzir a intuição filosófica de Hegel para os termos da linguística. Se Saussure e Hjelmslev focaram no sistema (a língua), Benveniste deslocou o foco para o seu uso em situações concretas, para o ato individual de apropriação da língua: a enunciação.


A Subjetividade na Linguagem

Benveniste propõe uma inversão fundamental: não é o sujeito pré-existente que cria a linguagem para se expressar. Ao contrário, é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. A subjetividade é a capacidade de o locutor propor-se como "eu".

Essa capacidade, no entanto, e aqui ecoa Hegel, só existe na relação com o outro. O "eu" só tem sentido quando se dirige a um "tu". É no diálogo, na alternância entre essas posições, que a subjetividade emerge. A isso Benveniste chama de intersubjetividade, a condição fundamental para a existência do "eu".


As Marcas da Enunciação no Discurso

Essa subjetividade se materializa na língua por meio de palavras que ele chama de indicadores de subjetividade ou dêiticos. São termos como "eu", "tu", "aqui", "agora", "ontem", cujo significado só pode ser determinado no momento em que são pronunciados, na cena concreta da enunciação.

  • Quem é "eu"? Depende de quem está falando.

  • Onde é "aqui"? Depende de onde o falante está.

  • Quando é "agora"? Depende do momento da fala.

Dessa forma, Benveniste reinsere o sujeito na análise linguística, mostrando que a língua, embora seja um sistema formal, só se realiza plenamente na fala, através da assunção da subjetividade por um "eu" que se dirige a um "tu". Ele dá, assim, materialidade linguística à dialética hegeliana do reconhecimento.


6. Jacques Lacan: A Apropriação Psicanalítica da Linguística e da Filosofia

Chegamos, enfim, a Jacques Lacan. Em seu conhecido e polêmico "retorno a Freud", Lacan encontrou na linguística estrutural e na filosofia hegeliana as ferramentas que precisava para reler e formalizar a obra freudiana.


O contato com as obras de Lévi-Strauss, Jakobson e, claro, com a leitura de Hegel feita por Alexandre Kojève, foi fundamental para seu projeto de mostrar que o inconsciente não é um reservatório caótico de instintos, mas algo estruturado, organizado, e que o sujeito é, antes de tudo, um efeito da linguagem e do desejo do Outro.


No entanto, Lacan não foi um mero aplicador de conceitos. Para atender às necessidades da experiência psicanalítica, ele os subverteu e transformou. A tabela abaixo sintetiza essa relação criativa e complexa:

Conceito (Linguística/Filosofia)

Adaptação Lacaniana para a Psicanálise

O Signo (Saussure)

Lacan rompe a unidade do signo e prioriza o significante. Para ele, o significante é a unidade fundamental do inconsciente.

O significado é um efeito fugidio, que escorrega e desliza sob a cadeia de significantes, nunca sendo apreendido por completo.

Arbitrariedade do Signo (Saussure)

A ideia é radicalizada. Não há relação fixa e estável entre significante e significado.

O sujeito é barrado, dividido, justamente por estar sujeito a essa cadeia significante que o determina e da qual não tem controle total.

Língua vs. Fala (Saussure)

A língua corresponde à ordem do simbólico, o campo das leis, da cultura, da estrutura que nos antecede e nos molda – o grande Outro. A fala é o ato concreto pelo qual o sujeito emerge e se endereça a esse Outro. O inconsciente, para Lacan, é "o discurso do Outro".

"Eu" e "Tu" (Benveniste) / Reconhecimento (Hegel)

Lacan incorpora a noção de intersubjetividade e de reconhecimento, mas as complexifica.

O "eu" não se constitui apenas na relação com um "tu" empírico, mas sim na sua relação com o campo da linguagem, o tesouro dos significantes, o Outro (com "A" maiúsculo) , que o antecede e o determina.

O desejo, então, não é apenas desejo de reconhecimento, mas desejo do desejo do Outro.

Lacan opera um corte radical: para ele, o inconsciente é um saber que não se sabe, uma cadeia de significantes que se articulam e insistem nos sonhos, nos chistes, nos sintomas e na vida do sujeito.

O sujeito do inconsciente não é o "eu" consciente da filosofia, mas sim aquilo que um significante representa para outro significante. É um sujeito descentrado, dividido e constituído pela própria linguagem que o atravessa.


Para finalizar: A Linguagem como Morada do Ser (e do Desejo)

O que essa jornada nos mostra é que a compreensão do sujeito e da linguagem não pode ser feita de forma isolada.

  1. Hegel nos ensinou que o "eu" só existe pelo reconhecimento do "tu".

  2. Saussure nos deu a estrutura, o sistema da língua que nos antecede.

  3. Jakobson mostrou a complexidade funcional da comunicação.

  4. Hjelmslev radicalizou a noção de forma pura.

  5. Benveniste deu materialidade linguística à relação eu-tu, mostrando como a subjetividade emerge na enunciação.

  6. Lacan, por fim, amarrou tudo: o inconsciente é essa estrutura (Saussure/Hjelmslev) que fala (Jakobson) através de um sujeito que só existe na sua relação faltosa com o Outro (Hegel/Benveniste), e que, nesse processo, revela a verdade do seu desejo.


A linguagem, portanto, não é apenas aquilo que falamos. É aquilo que nos fala. É a morada do ser, sim, mas também a morada do desejo – um desejo que é, desde sempre, desejo do Outro.


E para você, como essas ideias ressoam? Já tinha pensado na linguagem como algo que nos estrutura de forma tão profunda, a ponto de ser a própria matéria dos nossos sonhos, sintomas e desejos? Deixe seu comentário abaixo e vamos continuar essa conversa!


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1 comentário

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Monica
08 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito interessante.

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