Hermine Hug-Hellmuth: a pioneira esquecida da psicanálise infantil
- Prof. Paulo Psicanalista Didata

- 14 de ago.
- 7 min de leitura
Quando a história da psicanálise é apresentada, os nomes de Sigmund Freud, Melanie Klein, Anna Freud e Winnicott costumam ocupar o centro da narrativa da psicanálise infantil. Antes, porém, de a psicanálise com crianças se consolidar como campo específico de investigação e tratamento, uma mulher já se dedicava a compreender a vida psíquica das crianças: Hermine Hug-Hellmuth.
Nascida em Viena, em 31 de agosto de 1871, Hermine foi uma das primeiras mulheres austríacas a ingressar na Universidade de Viena e é frequentemente reconhecida como a primeira psicanalista a trabalhar sistematicamente com crianças. Sua trajetória foi marcada por inovação, dificuldades institucionais, controvérsias e um final trágico que acabou obscurecendo sua contribuição para a história da psicologia e da psicanálise.wikipedia
Da docência à psicanálise
Hermine nasceu em uma família aristocrática vienense, com o nome Hermine Hug von Hugenstein. Assim como sua irmã Antonie, iniciou a carreira no magistério. Primeiro, lecionou em escolas públicas de Viena, trabalhando com crianças do ensino elementar e, posteriormente, com alunos de séries mais avançadas.
Em 1897, realizou os exames necessários para ingressar no ensino superior, tornando-se uma das primeiras mulheres austríacas a estudar na Universidade de Viena. Embora tenha iniciado sua formação nas ciências naturais, sua tese de doutorado, defendida em 1909, tratava das propriedades físicas e químicas de substâncias radioativas. Aos poucos, contudo, seu interesse deslocou-se para os mistérios da subjetividade e para o funcionamento da mente humana.encyclopedia
Depois de abandonar o ensino regular, Hermine passou a estudar psicanálise de forma independente. Seu contato inicial com essa área ocorreu por intermédio de Isidor Sadger, médico especializado em neurologia e psicanalista. A partir daí, dedicou-se à leitura da literatura psicanalítica e à elaboração de trabalhos próprios.
Em 1912, adotou o nome Hermine Hug-Hellmuth. A mudança, além de marcar uma nova etapa de sua vida intelectual, também parece ter representado um afastamento da identidade aristocrática de origem. No ano seguinte, foi aceita na Sociedade Psicanalítica de Viena, instituição ligada ao círculo de Sigmund Freud. Sua admissão foi especialmente significativa por se tratar de uma das poucas mulheres presentes no movimento psicanalítico daquele período.encyclopedia
A criança como sujeito psíquico
A importância de Hug-Hellmuth está relacionada, sobretudo, à sua tentativa de compreender a criança como alguém dotado de vida psíquica própria, desejos, conflitos, fantasias e formas particulares de expressão.
Naquele contexto, a infância ainda era muitas vezes vista apenas como uma etapa preparatória para a vida adulta. Hermine, porém, procurou observar a criança em suas atividades cotidianas, especialmente nas brincadeiras. Para ela, o brincar não era apenas uma atividade recreativa, mas poderia revelar aspectos do mundo interno infantil.
Essa perspectiva abriu caminho para uma nova forma de escuta clínica. Em vez de esperar que a criança se expressasse por meio da associação livre — método tradicionalmente utilizado com adultos —, a psicanálise infantil passou a considerar o jogo, o desenho, os comportamentos e as relações familiares como importantes vias de acesso à subjetividade.
Seu trabalho antecedeu e influenciou desenvolvimentos posteriores realizados por psicanalistas como Melanie Klein, Helene Deutsch e Anna Freud. Mais tarde, Klein transformaria a observação do brincar em uma técnica terapêutica estruturada, conhecida como técnica do brincar.encyclopedia
Sobre a técnica da análise infantil
Entre os trabalhos mais importantes de Hermine está o texto “Sobre a técnica da análise infantil”, apresentado no VI Congresso Internacional de Psicanálise, realizado em Haia, em 1920.
O texto é considerado uma contribuição pioneira porque discutia diretamente as dificuldades e possibilidades da análise com crianças. Hermine se perguntava como adaptar os procedimentos psicanalíticos a pacientes que ainda não possuíam os recursos linguísticos, a autonomia e a capacidade de reflexão característicos dos adultos.
Sua proposta não consistia simplesmente em aplicar à criança o mesmo método utilizado com adultos. Era necessário levar em conta o desenvolvimento, a dependência em relação aos pais, o papel da educação e a maneira como os conflitos apareciam no comportamento.
Essa preocupação permanece atual. A clínica infantil exige que o profissional esteja atento não apenas ao discurso verbal, mas também às manifestações corporais, às brincadeiras, aos silêncios, às fantasias e às formas de vínculo. Nesse sentido, a obra de Hug-Hellmuth antecipou uma questão central da psicanálise com crianças:
Como escutar um sujeito que ainda está construindo sua própria linguagem?
O diário de uma jovem
Em 1919, Hermine publicou Tagebuch eines halbwüchsigen Mädchens, conhecido em inglês como A Young Girl’s Diary. O livro era apresentado como o diário editado de uma adolescente austríaca de classe média alta, escrito nos primeiros anos do século XX.
A obra recebeu elogios de intelectuais importantes, como Lou Andreas-Salomé e Stefan Zweig. Freud também aprovou o texto e o descreveu como uma obra capaz de oferecer uma visão clara e autêntica dos impulsos psíquicos envolvidos no desenvolvimento de uma menina antes da puberdade.encyclopedia
Entretanto, o livro logo se tornou objeto de intensa controvérsia. Alguns psicanalistas e psicólogos questionaram sua autenticidade, sugerindo que o diário poderia ter sido escrito ou amplamente produzido pela própria Hug-Hellmuth. Alfred Adler e integrantes de seu círculo estiveram entre os primeiros críticos. Mais tarde, pesquisadores como Cyril Burt e Charlotte Bühler também argumentaram que os conteúdos do diário não correspondiam adequadamente às fases esperadas do desenvolvimento de uma adolescente.
Hermine admitiu ser a editora do material, mas nunca reconheceu publicamente que tivesse escrito a maior parte — ou a totalidade — do diário. Estudos posteriores, realizados por pesquisadores franceses, apresentaram argumentos consistentes para atribuir a autoria à própria psicanalista.encyclopedia
Mesmo que não seja um diário autobiográfico autêntico, o livro continua relevante. Ele pode ser lido como um documento literário e clínico sobre a adolescência, os conflitos familiares, a sexualidade, a vergonha, a formação da identidade e as transformações subjetivas que acompanham a passagem para a vida adulta.
A relação com o sobrinho
A vida pessoal de Hermine esteve profundamente ligada à história de seu sobrinho, Rudolph Otto Hug, conhecido como Rolf. Filho ilegítimo de sua irmã Antonie, Rolf perdeu a mãe em 1915 e passou por diferentes lares e instituições.
Hermine envolveu-se intensamente em sua educação e em sua análise. O menino tornou-se também uma importante referência para suas pesquisas sobre a vida psíquica infantil. Em sua obra Aus dem Seelenleben des Kindes, publicada em 1913, Rolf aparece como uma figura central para as observações da autora.
Com o passar dos anos, entretanto, a relação entre ambos se deteriorou. Rolf apresentava dificuldades emocionais, conflitos sociais e comportamentos considerados violentos ou delinquentes. Ele chegou a acusar Hermine de tratá-lo mais como objeto de pesquisa do que como sobrinho.
Essa dimensão da história provoca uma reflexão ética importante. A psicanálise infantil sempre envolve uma tensão entre o cuidado clínico, a produção de conhecimento e a posição de poder ocupada pelo adulto. A criança não pode ser reduzida a um “caso”, a um exemplo teórico ou a um objeto de investigação. A experiência de Hug-Hellmuth, nesse aspecto, também permite pensar criticamente os limites da prática psicanalítica em seus primeiros anos.
Uma morte trágica
Na noite de 8 para 9 de setembro de 1924, Rolf entrou na residência da tia. Segundo o relato biográfico apresentado pela Encyclopedia.com, ele pretendia roubar dinheiro. Hermine despertou e, para impedir que gritasse, foi estrangulada pelo sobrinho.
Rolf foi preso pouco depois e confessou o crime. O episódio provocou grande repercussão na imprensa vienense. Alguns jornalistas chegaram a insinuar que a própria prática psicanalítica de Hermine teria contribuído para o comportamento do sobrinho, transformando sua morte em um espetáculo público e moralizante.
A tragédia passou a dominar as narrativas sobre sua vida. Seu assassinato recebeu mais atenção do que suas pesquisas, sua produção intelectual e seu pioneirismo. A história de Rolf tornou-se uma espécie de lente pela qual toda a obra de Hermine passou a ser observada.
Esse processo revela uma tendência frequente na historiografia: mulheres intelectuais são muitas vezes lembradas por acontecimentos dramáticos de sua vida privada, enquanto suas contribuições teóricas acabam relegadas a segundo plano. No caso de Hug-Hellmuth, a violência de sua morte eclipsou o fato de que ela havia participado da construção de um campo inteiro: a psicanálise infantil.
Um legado que precisa ser retomado
Hermine Hug-Hellmuth não desenvolveu um sistema teórico tão conhecido quanto o de Melanie Klein ou Anna Freud. Ainda assim, ela foi a pioneira e sua importância histórica é inegável.
Ela esteve entre as primeiras psicanalistas a:
Considerar a criança como sujeito de conflitos e desejos próprios;
Investigar a vida psíquica infantil de maneira sistemática;
Observar o brincar como manifestação significativa;
Discutir uma técnica específica para o atendimento de crianças;
Relacionar psicanálise, educação e desenvolvimento;
Questionar como adaptar a escuta analítica às particularidades da infância.
Sua obra também apresenta limites que devem ser analisados criticamente, especialmente no que diz respeito à relação com o sobrinho, ao uso de material clínico e à fronteira entre investigação, tratamento e exposição da intimidade.
Retomar Hermine Hug-Hellmuth não significa transformá-la em uma heroína sem contradições. Significa reconhecer que a história da psicanálise foi construída por muitas mulheres, algumas delas posteriormente apagadas, minimizadas ou lembradas apenas por episódios trágicos. Sua trajetória mostra que a psicanálise infantil não nasceu pronta com seus nomes mais conhecidos: ela foi construída por tentativas, conflitos, impasses e contribuições pioneiras.
Considerações finais
Hermine Hug-Hellmuth foi uma das primeiras mulheres a ocupar um lugar de destaque na psicanálise vienense e uma pioneira no estudo clínico da infância. Seu interesse pelo brincar, pela educação e pelos conflitos infantis ajudou a preparar o terreno para o desenvolvimento posterior da psicanálise com crianças.
Sua história, contudo, também convida à prudência. A criança precisa ser escutada como sujeito, e não utilizada apenas como objeto de pesquisa. A clínica infantil exige responsabilidade ética, atenção aos vínculos familiares e cuidado com a exposição da intimidade.
Mais de um século depois, o legado de Hug-Hellmuth continua relevante justamente porque combina inovação e controvérsia. Conhecê-la é ampliar a compreensão sobre as origens da psicanálise infantil e recuperar a presença de uma mulher cuja contribuição foi, por muito tempo, obscurecida pela dramaticidade de sua morte. Ver o texto original na referencia.
Referência
HAAG, John. “Hug-Hellmuth, Hermine (1871–1924).” Women in World History: A Biographical Encyclopedia. Encyclopedia.com. Disponível em: Hermine Hug-Hellmuth (1871–1924). Acesso em 14 ago. 2026.
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