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Sua piada não funciona sozinha: quem te dá a sanção? Lacan explica isso no Seminário 5

  • Foto do escritor: Prof. Paulo Psicanalista Didata
    Prof. Paulo Psicanalista Didata
  • 9 de jun.
  • 3 min de leitura

O que transforma um erro em genialidade? (E o que o analista tem a ver com isso?)

Você já cometeu um lapso e ficou com vergonha? Ou já soltou uma palavra errada e todo mundo riu, mas você não entendeu por quê?


Pois é. Existe uma diferença entre um erro qualquer e um chiste (aquela piada inteligente, o trocadilho, a tirada espirituosa). E essa diferença tem um nome: a sanção do Outro.


Vamos entender isso de uma vez por todas.


O mesmo fenômeno, dois destinos diferentes

Imagine duas situações:


Situação 1 (o lapso que ninguém notou)

  • Você está conversando com um amigo e diz: "Vou ligar para meu marido"... "quer dizer, meu pai!" Errou. Pediu desculpas. Seguiu em frente. Ninguém achou graça. Foi só um lapso.


Situação 2 (o chiste que todo mundo achou genial)

  • Lacan cita no Seminário 05, Heinrich Heine, o poeta, inventa um personagem que diz ter sido tratado "de maneira totalmente familionária". A palavra não existe. É a junção de "familiar" e "milionário". Todo mundo ri. É considerado genial.


Qual é a diferença entre as duas situações?


Resposta de Lacan: A diferença é a sanção do Outro.


O que significa "sanção" aqui?

  • Sanção nestes casos, não é punição.

  • É reconhecimento, validação, homologação.

  • É como um carimbo que alguém (ou algo) coloca na sua fala dizendo: "Isso não foi um erro. Isso foi espirituoso."


Sem sanção

Com sanção

"Familionário" foi apenas um erro

"Familionário" é um chiste, é espirituoso

O lapso passa despercebido

O lapso é reconhecido como significativo

A fala do paciente é só ruído

A fala do paciente é escutada como formação do inconsciente

"Não há chiste sem um Outro que o autentique como tal." (Lacan)


Quem é esse "Outro" com letra maiúscula?

  • Não é uma pessoa. É o lugar da linguagem, da lei, do código, da tradição cultural.

  • É a língua portuguesa, que você não inventou mas que te precede.

  • É o conjunto de regras, trocadilhos, referências que fazem uma piada fazer sentido.

  • Esse grande "O" é o que mais confunde nas teorias de Lacan, mas esse Outro é o "tesouro dos significantes" que você herda ao nascer em uma cultura.


Exemplo:

  • Você conta uma piada em português para um francês que não entende o idioma. Ele não ri.

  • Não é que a piada seja ruim.

  • É que o Outro (a língua portuguesa) não está ali para sancionar.

  • O francês não tem acesso ao código que faz a piada funcionar.

  • Mas suponha que nesse exemplo quem contou a piada, ri primeiro e os demais também riem? Ah me perguntem que eu conto o porque.


O chiste precisa de três pessoas (o cômico só precisa de duas)

Lacan (seguindo Freud) faz uma distinção fundamental:

Cômico

Chiste (espirituoso)

Relação dual (duas pessoas).

Relação ternária (três pessoas).

Alguém faz algo engraçado, outro observa.

Alguém conta, alguém ouve, e um terceiro sanciona.

Exemplo:

Alguém tropeça na rua e você ri

Exemplo:

Você conta uma piada e todos riem porque reconhecem a "espirituosidade"

  • O cômico pode funcionar entre duas pessoas.

  • O chiste, não. O chiste exige que haja um lugar simbólico (o Outro) que diga: "Isso é espirituoso, não apenas engraçado."


E na clínica de análise? O analista como Outro

A situação analítica é o lugar privilegiado onde essa sanção pode ocorrer.

O paciente chega, fala, tropeça nas palavras, comete lapsos. O que o analista faz com isso?


Se o analista ignora

Se o analista sanciona demais

O que o analista lacaniano faz

O paciente sente que sua fala não tem valor

O paciente começa a "performar" chistes para agradar o analista

Escuta. Sanciona implicitamente.

Faz um corte, um silêncio, uma pergunta que mostra que algo ali foi ouvido como significante.


O risco: sancionar demais ou de menos


O Erro

O que acontece

Sancionar tudo como chiste

O paciente entra no jogo da sugestão. Produz "chistes" para agradar. Vira um show de comédia, não uma análise.

Nunca sancionar

O paciente sente que sua fala não tem valor. A transferência não se estabelece. O inconsciente não aparece.

O analista não declara "isso foi espirituoso". Ele escuta.

E, vez ou outra, faz um corte, um silêncio, uma pergunta que mostra que algo ali foi ouvido. A sanção é implícita, não declarada.


"O lapso é um erro que ninguém vê. O chiste é um erro que o Outro vê e chama de genial. O analista não declara a genialidade. Ele escuta o erro como se ele pudesse ser genial. E, às vezes, o paciente descobre que era."


Gostou? Compartilhe com aquele amigo que sempre faz trocadilhos e não sabe que está revelando o inconsciente.


Quer saber mais? No Seminário 5, Lacan mostra que chistes, lapsos e sintomas seguem as mesmas leis: metáfora e metonímia. O inconsciente não é um depósito de segredos. É uma máquina de fazer trocadilhos.


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