A Crise do Espelho: Pais, Adolescentes e o Luto da Infância

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TEMAS CONTEMPORÂNEOS

Prof. Paulo C. Galetto - Psicanalista Didata

10/1/20266 min read

O Pedido que Chega ao Consultório

"Ele não obedece mais."
"Ela não estuda."
"Ele está agressivo, não fala com a gente."
"Será que é TDAH?"

Essas queixas, tão familiares a quem trabalha com adolescentes, chegam ao consultório carregadas de angústia. Mas há algo nelas que frequentemente passa despercebido: a crise não é apenas do jovem.

Quando um filho entra na adolescência, não é só ele que atravessa uma tempestade. Os pais também adoecem de uma perda silenciosa, o luto pelo filho criança que controlavam. A adolescência é um espelho quebrado que reflete duas dores: a do jovem que enterra a infância e a dos pais que perdem o lugar de onipotência.

Este texto propõe uma leitura psicanalítica dessa travessia, articulando três eixos fundamentais: a crise parental e o luto da infância, o peso da autonomia e a busca por "conserto" e o verdadeiro lugar do analista.

A Crise Parental e o Luto da Infância

O Luto dos Pais

Arminda Aberastury e Mauricio Knobel, em Adolescência Normal, destacam que o processo de separação é duplo. Assim como o adolescente precisa elaborar os lutos do seu corpo, papel e pais infantis, os pais também precisam fazer o luto do filho criança:

  • do seu corpo infantil;

  • da sua identidade dependente;

  • do lugar de proteção total que ocupavam.

Ao se separar do filho pequeno, o pai vê-se confrontado com a perda da imagem idealizada de si mesmo e com a evidência de seu próprio envelhecimento. Não é uma falha educativa: é um trabalho psíquico doloroso e muitas vezes renegado.

A Crise Parental em Espelho

Daniel Marcelli e Alain Braconnier, em Adolescência e Psicopatologia, conceituam a crise parental como um movimento em espelho à crise do filho. O amadurecimento genital do adolescente desorganiza o equilíbrio familiar e provoca:

  • Despertar pulsional nos pais: a sexualidade concreta do jovem reaviva fantasias edipianas e angústias incestuosas (o "incesto possível").

  • "Desemprego parental": a mãe e o pai enfrentam a perda da função de cuidado primário e precisam renunciar ao Ideal do Ego projetado no filho.

A Perda da Ilusão Ideal

J.-D. Nasio, em Como Agir com um Adolescente Difícil?, lembra que a agressividade do jovem frequentemente responde às expectativas neuróticas dos pais. Estes sofrem uma dupla perda:

  • a do bebê dócil do passado;

  • a da ilusão de ter um adolescente ideal, sem conflitos.

O amor parental passa a ser vivenciado pelo jovem como cobrança esmagadora: "eles só querem meu desempenho, não a mim".

A Desconstrução do "Outro" Idealizado

Sonia Alberti, em O Adolescente e o Outro, ressalta que, na infância, a criança tenta "salvar o pai" para se proteger do desamparo. Na adolescência, as falhas dos pais tornam-se visíveis. O jovem arma-se do conhecimento dos pontos fracos dos pais para criticá-los e atingi-los.

Para os pais, suportar esse "aniquilamento narcísico" exige dom de amor e sustentação de limites, evitando a tentação de abandonar a função ou conceder uma falsa liberdade que o jovem vive como abandono.

O Sofrimento do Jovem e a Busca por "Conserto"

O Acting-Out e o Curto-Circuito da Ação

Diante do impacto da puberdade e da dor dos lutos, o adolescente normal recorre a "curtos-circuitos do pensamento", atuando na ação (motora e afetiva) aquilo que ainda não consegue simbolizar. A ausência de palavra gera o confronto e a oscilação polar entre dependência e independência.

A Histeria Salutar e o Medo de Humilhação

Nasio conceitua a neurose comum da adolescência como uma "histeria salutar". O eu imaturo do jovem encontra-se prensado entre a eclosão das pulsões e um supereu tirânico. Assustado por uma profunda sensação de inconsistência interna, o jovem desenvolve o medo inconsciente de ser humilhado.

Qualquer demanda ou ordem dos pais é vivida como tentativa de submissão. Para evitar a vergonha de se sentir fraco ou dependente, ele ataca e confronta. A agressividade é um escudo.

A Terceirização dos Limites e a Rota do Diagnóstico

Marcelli e Braconnier advertem sobre o risco de rotular ou categorizar comportamentos ruidosos como diagnósticos psiquiátricos fixados. A precipitação em buscar uma explicação médica (como TDAH ou TOD) muitas vezes funciona como uma tentativa de reificar o conflito relacional em um "defeito biológico" do jovem, desincumbindo a família e a sociedade da escuta do sofrimento.

Embora o TDAH seja um transtorno do neurodesenvolvimento legítimo — caracterizado por desatenção, impulsividade e prejuízos nas funções executivas —, sua proliferação no discurso parental na adolescência é frequentemente uma tentativa de encontrar uma causa orgânica para a recusa do jovem em submeter-se ao esforço e às demandas dos adultos.

Como observa Françoise Dolto, a vulnerabilidade desse período de mutação (o "Complexo do Lagostim", no qual a carcaça infantil caiu e a adulta ainda não se formou) exige proteção e escuta. Quando os pais não suportam essa fragilidade, recorrem à coação ou à busca por instâncias externas para restituir o controle perdido.

O Verdadeiro Lugar do Analista

Distinguir a Demanda dos Pais do Desejo do Adolescente

Sonia Alberti enfatiza que a demanda trazida pelos pais (queixas sobre comportamento, notas, rebeldia) quase nunca coincide com a questão do próprio adolescente. O analista não deve visar a simples remissão de sintomas para satisfazer a expectativa de controle dos pais, mas tratar o sujeito e seu posicionamento frente ao desejo e à castração.

O Analista "Não É um Mecânico"

O analista não ocupa o lugar do "Mestre" (que educa, impõe normas ou molda comportamentos). Como lembra Nasio, o psicanalista opera com um "inconsciente instrumental", oferecendo um diálogo verídico e apaziguador que ensina o adolescente a falar consigo de outra forma, flexibilizando seu supereu tirânico e transformando a fantasia de humilhação em humildade.

Peter Blos ressalta que o manejo clínico exige o desmascaramento das defesas narcísicas do jovem e a renúncia à ilusão de que o analista possui um poder "mágico" para resolver os conflitos sem dor ou esforço. O terapeuta recusa a onisciência para que o jovem abandone a busca de fontes externas de satisfação e descubra seus próprios recursos.

Não Ser o "Bom Pai"

Marcelli e Braconnier alertam que o terapeuta jamais deve ocupar o lugar de "bom pai" em oposição aos "pais ruins/incapazes". O trabalho inclui restaurar a dignidade da função dos pais. Alberti assinala que os pais são as balizas necessárias para que a separação ocorra; se o analista acolhe a angústia dos pais na primeira entrevista telefônica ou presencial, ele os reconforta e impede que "deixem cair" o filho por desesperança.

Favorecer a Elaboração da Falta e o Desligamento Subjetivo

Entrar na adolescência é uma escolha subjetiva de assumir o desligamento dos pais. O analista acolhe o jovem a sós (garantindo o segredo em relação aos pais) para que ele possa elaborar a falta no Outro (perceber que os pais são castrados e imperfeitos) e assumir a sua própria castração simbólica, condição indispensável para sustentar um desejo próprio no mundo.

Síntese: O Ato Psicanalítico

A metáfora do Kintsugi — a arte japonesa de reparar cerâmicas quebradas com ouro — sintetiza a posição clínica. A adolescência quebra a infância. Não se trata de colar os cacos para simular o passado, nem de patologizar a crise. Trata-se de usar a escuta para forjar um adulto resiliente.

As marcas da adolescência, quando acolhidas e elaboradas, tornam-se linhas de ouro que dão nova forma e beleza ao sujeito.

"A adolescência quebra a infância. Não colamos os cacos para simular o passado. Usamos a escuta para forjar um adulto resiliente."

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Referências Bibliográficas

  • ABERASTURY, A.; KNOBEL, M. Adolescência Normal. Porto Alegre: Artes Médicas.

  • ALBERTI, S. O Adolescente e o Outro. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

  • BLOS, P. Adolescência. São Paulo: Martins Fontes.

  • BRITES, J. Transtornos da Infância e Adolescência.

  • DOLTO, F. A Causa dos Adolescentes. São Paulo: Martins Fontes.

  • MARCELLI, D.; BRACONNIER, A. Adolescência e Psicopatologia. Porto Alegre: Artmed.

  • NASIO, J.-D. Como Agir com um Adolescente Difícil? Rio de Janeiro: Zahar.

  • DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.