Entre a Linguagem e a Interpretação: a psicanálise e sociolinguística

Ao aproximarmos os estudos linguísticos e sociolinguísticos da Psicanálise, encontramos uma questão importante: existe uma diferença entre aquilo que o sujeito fala, aquilo que escreve e os significados que constrói por meio da linguagem.

Crisney Barbosa - Psicanalista Didata

9/29/20264 min read

Sou professor de Língua Portuguesa e prezo por uma boa análise textual, pautada pelo rigor da gramática. Entretanto, quando estudamos a Linguística, especialmente a Sociolinguística, deparamo-nos com uma realidade que considera a linguagem em sua dimensão social, contemplando os regionalismos, as gírias e as diferentes formas de construção de sentidos.
Ao aproximarmos os estudos linguísticos e sociolinguísticos da Psicanálise, encontramos uma questão importante: existe uma diferença entre aquilo que o sujeito fala, aquilo que escreve e os significados que constrói por meio da linguagem. Se observarmos a comunicação cotidiana, perceberemos que as pessoas falam muito mais do que escrevem. São poucas as que conseguem transpor para a escrita, de maneira elaborada, todos os seus pensamentos, sentimentos e experiências.
Na Psicanálise, a interpretação considera não apenas aquilo que é conscientemente enunciado, mas também aquilo que pode se manifestar por meio do inconsciente. Nesse sentido, Zimerman (2004, p. 156) aborda a representação-coisa e a representação-palavra, está relacionada ao acesso ao sistema pré-consciente. A palavra, enquanto forma de simbolização, possibilita ao sujeito representar e elaborar aspectos de sua experiência psíquica.
Assim, a linguagem não se restringe ao significado literal das palavras. O sujeito também expressa suas emoções, conflitos e desejos por meio da maneira como fala, silencia, repete, hesita ou organiza seu discurso. Por isso, na clínica psicanalítica, a compreensão da linguagem verbal pode ser articulada à observação de manifestações não verbais, como gestos, expressões, silêncios, pausas e mudanças na entonação. Desse modo, a linguagem pode ser compreendida como um espaço de construção de sentidos: na Linguística, observamos suas estruturas, usos e variações sociais; na Sociolinguística, consideramos as relações entre língua, sociedade e identidade; e, na Psicanálise, investigamos aquilo que o sujeito revela e, ao mesmo tempo, aquilo que pode permanecer oculto em seu discurso.
Na obra língua de Eulália, de Marcos Bagno, é uma obra que apresenta a Sociolinguística de maneira acessível, discutindo principalmente o preconceito linguístico e a diversidade existente na língua portuguesa brasileira. A ideia da obra é: acompanhar três estudantes universitárias Vera, Sílvia e Emília que passam um período de férias na chácara de Eulália, uma empregada doméstica que possui grande conhecimento da língua e da cultura popular.
Inicialmente, as jovens consideram algumas formas de falar de Eulália como “erradas” ou como sinais de falta de conhecimento da língua portuguesa. A partir das conversas com Irene, professora de Linguística e tia de uma das jovens, elas começam a compreender que aquilo que consideravam “erro” muitas vezes corresponde a variações linguísticas que podem ser explicadas histórica, social e culturalmente.
A estrutura entre linguagem e fala se entrelaçam com a sociedade, mostrando como questões internas e externas interagem na construção do preconceito linguístico. É justamente nesse ponto que precisamos estabelecer uma relação entre preconceito e interpretação. As jovens interpretavam determinadas formas de falar como “erro” porque partiam de uma concepção normativa da língua, sem considerar o contexto social, cultural e histórico daquela fala.
Essa reflexão pode ser aproximada da Psicanálise, especialmente quando pensamos na importância da linguagem na constituição do sujeito. Em Lacan, a formulação de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” nos conduz a compreender que a fala do sujeito não deve ser tomada apenas pelo seu sentido aparente. A linguagem se entrelaça com a realidade psíquica, com os conflitos, os desejos, as angústias, as relações e as experiências do sujeito.
Assim, na sessão psicanalítica, é fundamental que o analista esteja atento à maneira como o paciente constrói sua fala. Se o analista escuta a linguagem do paciente a partir de preconceitos, julgamentos ou concepções previamente estabelecidas, corre o risco de reduzir aquilo que está sendo dito a um simples “erro”, quando, na verdade, determinada forma de expressão pode carregar sentidos importantes para aquele sujeito.
A aproximação entre sociolinguística e psicanálise permite, portanto, pensar a linguagem para além da ideia de certo e errado. Na clínica, a escuta analítica procura compreender como o sujeito se expressa, quais significantes aparecem, quais sentidos são construídos e como sua história atravessa aquilo que é dito.
Desse modo, a relação entre paciente, analista e linguagem vai se construindo progressivamente na sessão. Assim como Bagno nos convida a olhar para a diversidade linguística sem transformar a diferença em erro, a Psicanálise nos convida a escutar o sujeito sem reduzir sua fala a interpretações preconcebidas. A linguagem, nesse sentido, não é apenas um instrumento de comunicação: ela participa da construção dos sentidos que o sujeito atribui à própria experiência.
Referências:
  • BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2017.
  • BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 56. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
  • BARBOSA, Crisney. Uma análise do Eu, Etiqueta e Ismália na Perspectiva da psicanálise. Porto Alegre, RS: Lumina, 2026
  • JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise: de Freud a Lacan. v. 1: As bases conceituais. 3. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
  • ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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