Além do Princípio do Prazer: Eros e Tânatos na Teoria Freudiana

Por que repetimos o que nos faz sofrer? A resposta está em uma das descobertas mais perturbadoras da psicanálise.

TEMAS CONCEITUAIS

Paulo C. Galetto - Psicanalista Didata

10/30/20263 min read

Por que repetimos o que nos faz sofrer? A resposta está em uma das descobertas mais perturbadoras da psicanálise.

A Descoberta que Abalou a Psicanálise

Em 1920, Freud publica Além do princípio do prazer, texto que marca uma virada fundamental em sua teoria. Até então, o psicanalista acreditava que o aparelho psíquico era regido primordialmente pela busca do prazer e pela evitação do desprazer.
No entanto, a clínica revelou algo inquietante: pacientes repetiam experiências dolorosas, reviviam traumas, sabotavam conquistas e retornavam a vínculos destrutivos. Como explicar esse fenômeno se o psiquismo busca o prazer?
A resposta freudiana inaugura o segundo dualismo pulsional.

Além do Princípio do Prazer: A Compulsão à Repetição

A compulsão à repetição constitui um limite à busca pelo prazer. Há algo no sujeito que insiste em retornar a vivências de desprazer, não como memória consciente, mas como ato repetido.
Essa descoberta leva Freud a postular uma tendência mais originária que o princípio do prazer: a pulsão de morte.

O Dualismo Pulsional: Eros e Tânatos

Eros: a Pulsão de Vida

Eros representa as forças de ligação, unificação e preservação da vida. É a pulsão que busca investir, conectar, criar vínculos e complexificar o psiquismo. A libido, conceito central da primeira tópica, é aqui compreendida como expressão de Eros.

Tânatos: a Pulsão de Morte

A pulsão de morte opera no sentido oposto: desligamento, dissolução e retorno ao inorgânico. Não se trata apenas de uma pulsão de destruição dirigida ao mundo externo, mas de uma força que tende à redução completa das tensões, ao estado de quietude absoluta.
A tensão constante entre Eros e Tânatos constitui a dinâmica fundamental do aparelho psíquico. Nenhuma das duas pulsões opera isoladamente: elas estão sempre entrelaçadas, em combinações variáveis.

Masoquismo Primário: Quando Tânatos se Volta Contra o Eu

Uma das expressões mais intrigantes da pulsão de morte é o masoquismo primário.
Neste fenômeno, a pulsão de morte volta-se contra o próprio eu, produzindo satisfação no sofrimento. Não se trata de uma busca consciente pela dor, mas de uma dinâmica inconsciente na qual o sujeito encontra prazer em seu próprio padecimento.
Freud explora esse conceito em O problema econômico do masoquismo (1924), texto essencial para compreender as formas contemporâneas de autossabotagem e sofrimento repetitivo.

A Destrutividade Humana: Agressividade, Guerra e Violência

A pulsão de morte também se manifesta voltada para o mundo externo, como agressividade e destrutividade.
Freud não hesita em aplicar essa compreensão à análise social: a guerra, a violência e a crueldade humana são expressões de Tânatos operando na cultura. Em O mal-estar na civilização (1930), o autor desenvolve como a civilização precisa conter e canalizar essas forças destrutivas, mas nunca as elimina completamente.
A tensão entre Eros e Tânatos não é apenas intrapsíquica: ela atravessa as relações humanas, as instituições e a própria civilização.

Implicações Clínicas do Dualismo Pulsional

Compreender o dualismo pulsional transforma a escuta clínica:
  • A repetição não é apenas resistência: é também expressão de forças mais arcaicas que o princípio do prazer.
  • O sofrimento pode ser satisfatório: o masoquismo primário revela que o eu pode se organizar em torno da dor.
  • A destrutividade não é apenas agressividade dirigida ao outro: é também uma força que dissolve vínculos e tende à desintegração.
  • A clínica opera no entrelaçamento de Eros e Tânatos: não se trata de eliminar a pulsão de morte, mas de criar condições para que Eros possa ligar, investir e sustentar a vida.

Para Aprofundar

Este é apenas um recorte do Seminário 10 – Pulsões de Vida e Morte, que integra o percurso de formação em psicanálise clínica. Os textos fundamentais incluem:

Referências:

  • FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. ESB, v. 18.
  • FREUD, S. (1924). O problema econômico do masoquismo. ESB, v. 19.
  • FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. ESB, v. 21.
  • FREUD, S. (1915). Pulsões e destinos da pulsão. ESB, v. 14.
  • LAPLANCHE, J. (1970). Vida e morte em psicanálise.
  • GREEN, A. (1983). Narcisismo de vida, narcisismo de morte.

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